...Coletânea...


28/11/2011


RELATO DE PARTO - IV

A médica então pediu para fazer um outro exame de toque. Ela fez e declarou: dilatação total! Hora de fazer força... A doula me lembrou da cadeira, para ir sentar, mas eu estava cansada. A obstetra então disse: vamos fazer agora do meu jeito para ver se dá certo e lá fui eu ficar em posição de frango assado, mas na cama mesmo. Não havia barras para me segurar, então era nas laterais da cama. Naquela hora, no entanto, eu sentia as contrações, mas não eram mais doídas e nenhuma vontade de fazer força para fazer cocô. A vontade havia passado! E o bebê ainda estava alto! Comecei a ficar com medo de que alguém sugerisse a cesárea, pois a mesma história havia se repetido com duas colegas... Ai, ai, ai Mas a médica sugeriu a ocitocina...

 

Não quis a ocitocina e a Clarissa então sugeriu andarmos mais e fazer alguns exercícios de agachamento. Comecei a andar, mas fiquei muito incomodada com o tanto de gente por lá: era eu, doula, marido, obstetra e pediatra! Pedi para saírem e ficamos eu e doula apenas no quarto, eu andando agachada e ela me puxando. Mais exercícios na barra... As contrações vinham e eu fazia força, mas elas eram irregulares... às vezes vinham tão fracas que era a Clarissa que me informava delas. Ela media pelo celular o tempo e a certa altura informou que a intensidade era boa, mas estavam muito irregulares.

 

Estava no vaso, sentada, descansando quando perguntei a ela o que achava da ocitocina. Ela, então, disse que seria uma boa ideia, pois ela iria apenas regularizar as contrações e como normalmente também teria glicose eu me sentiria mais animada para continuar. Eu aceitei então, mas pedi que fosse na mínima quantidade possível. Perguntei se eu já havia escapado da cesárea e ela disse que sim, que estava tudo indo muito bem e eu estava ótima. Perguntei se não poderiam disponibilizar anestesia, pois tinha receio de que a ocitocina deixasse as contrações também muito fortes e àquela altura eu não aguentaria contrações mais fortes. Ela falou: “anestesia para quê?! Você não vai precisar disso não! Todas nós falamos isso em algum momento e é sinal que está terminando! Daqui a alguns minutos seu bebê estará com você!”

 

Ela ligou para a médica e logo apareceram com o tal soro. Eu fui me deitar na cama. Subi de quatro e a médica até sugeriu que aquela seria uma ótima posição para parir (“pena que muitas mulheres não gostam dela!”), mas eu não aguentava mais suportar o peso do meu corpo... Sentei na cama, na posição tradicional mesmo e aplicaram o soro... Mas parece que ele não fez efeito!!

 

As contrações vinham ainda às vezes fortes, às vezes fracas, às vezes eram elas que me avisavam! A médica dizia que o bebê vinha e voltava... Clarissa começou a fazer leves massagens na minha barriga, dando batidinhas com os dedos. De repente ela disse que o útero estava respondendo bem a essas massagens. Então a pediatra também passou a ajudar...

 

De repente a médica disse: “É por isso que se faz episio... Querida, vou ter de fazer um corte.” Eu fiquei desesperada! Como? Por quê? Ela disse que estava tudo muito inchado, que todo o sangue que eu via não era do parto e sim do períneo, já machucado e que se não fizesse eu ficaria toda rasgada! A Clarissa olhou e disse que sim, que ela também teve de fazer...

 

O corte foi feito. Não sem antes eu esperar alguns minutos pelo material... Engraçado que enquanto esperava as contrações até aconteciam, mas eu não sentia nada, apenas o enrijecimento da barriga! Logo a médica falou que o nenem estava quase lá, que estava na hora de fazer força. Fiz isso mais umas três vezes, em uma o neném coroou, na segunda saiu a cabeça ou parte do corpo e já aí todos gritavam no quarto dizendo: isso! Já nasceu! Só mais um pouco! Mais uma! Vai! E então numa nova contração o bebê saiu, sendo imediatamente jogado sobre mim! Pronto: eu já era mãe.

Escrito por Sulamita Saad às 09h27
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RELATO DE PARTO - III

Eu não sei quanto tempo fiquei lá, não. Só sentia as contrações... Eram fortes, mas nos intervalos a água era o paraíso. Eu não pensava em absolutamente nada. Só aproveitava o momento...

 

Num certo momento senti uma pressão e uma vontade de fazer cocô. Todo mundo diz que isso é sinal de que a neném está saindo, que está chegando a hora. Mas, parece, não era o meu caso... A doula avisou à médica, que entrou no banheiro para conversar comigo. Pediu para eu sair da banheira, ela dizia que a neném estava chegando e que ela nasceria ali se eu não saísse logo. Eu brinquei e disse que seria bom, pois a água estava tão boa! Ela tentou entrar na banheira para me acompanhar, mas não conseguiu. Realmente não havia espaço lá e me pediu para sair, porque não havia como ela me dar suporte. Eu saí e sentei na cadeira de parto, mas só fiz cocô mesmo! A médica pediu para passar a cadeira para o quarto, para o bebê não nascer no banheiro (não sei por que não poderia!);

 

Eu passei para o quarto e me sentei na cadeira. Meu marido e a doula estavam por trás, me apoiando, me segurando. Na frente estava a médica e a pediatra, sentadas. Eu olhei para elas e perguntei afinal: “o que vocês estão fazendo paradas aí!? O bebê não vai nascer agora!”. Me levantei e andei; a médica falou: “vc não está mais conseguindo andar...”, mas eu continuei andando. Sentei de novo na cadeira, mas ficou bem desconfortável e me levantei. A pediatra disse que tinha uma cesárea para fazer e precisaria sair; a obstetra perguntou quanto tempo demoraria e a outra respondeu que uma hora e meia. Eu falei que poderia ir tranquila, pois ela iria fazer a cesárea e voltar e o bebê não teria nascido ainda. Ela saiu e a GO então pediu para fazer outro exame de toque.

 

Eu então falei: “ah, não... vai doer de novo! Não vai nascer agora, não precisa disso, não!” Ela respondeu: “agora não vai doer tanto, não. Já está mais dilatado. Vamos, vamos fazer para saber a quantas andam”. Deitei na cama... Realmente não senti nenhuma dor, apenas um pequeno desconforto, mas ainda estava em 8 dedos de dilatação! A médica então falou: “Nossa, está com um edema! Já para a banheira e fique lá até eu pedir para sair. Não faça força!Nada!” Como eu disse, não ia nascer naquela hora!

 

Voltei para a banheira. Mas por algum motivo o encanto meio que acabou... Não foi então tão legal: as contrações ficaram mais fortes e nenhuma posição aliviava e a água não estava tão quente mesmo. Fiquei sentada, semi-deitada, de quatro e nada de melhorar. Durante as contrações fazia careta e travava os dentes. E lá veio a Clarissa, a doula, com exercícios: nada de contrair a cara! Relaxe a mandíbula! Faça som de mmmm... Eu mordia a banheira, até que pensei: “putz, isso aqui vai furar comigo!” Nessa hora eu pensava que diabos estava fazendo ali, para quê tudo aquilo, onde é que eu havia amarrado minha burra?! Meu digníssimo veio com uma brincadeirinha dizendo que só o primeiro era difícil, que o quinto seria mais fácil. Mandei-o de volta à puta que o pariu (coitada da minha sogra...) e falei que aquilo era tudo culpa dele... Passei um tempo ainda mudando de posição, mas saí. Como eu disse, o encanto acabara...

 

Sai e fiquei um tempo no vaso sanitário. Sentia muita vontade de fazer cocô e perguntei se podia fazer força. A médica disse que ainda não era hora... Me levantei e comecei a andar pelo quarto, indo ao vaso sanitário, usando as barras para subir e descer. Mas eu havia cansado mesmo. Minhas pernas doíam até não poder mais! Decidi deitar na cama, um pouquinho só, para descansar. Acho que nisso se passou a hora e meia, porque em algum momento a pediatra já estava lá!

Escrito por Sulamita Saad às 09h27
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RELATO DE PARTO - II

Já às 3 da manhã, perto das 4, acordei de novo... As cólicas se tornaram um pouco mais intensas. Decidi levantar de vez e andar pela casa. Fazia movimentos de dança do ventre e andava. Às vezes me sentava, mas havia um desconforto grande, então voltava a andar. Comecei a marcar as contrações (já aquele momento eu não tinha a menor dúvida de que seriam elas, ainda que fossem fracas), mas eram irregulares... Nada de ir para o hospital... Ademais, como eu achava que eram ainda fracas, não iria mesmo!

 

Senti fome e comi o que havia de mais fácil: chocolate, barra de ceral... Tomei iogurte e yakult também... Mas vomitei tudo uns 20 minutos depois e daí em diante não comi mais nada, apenas bebi. Logo minha eterna companhia se levantou de novo e começou a me ajudar na marcação das contrações (realmente, é muito difícil sentir a dor e marcar o tempo dela e depois anotar no papel...)

 

Às 5 da manhã as contrações pareceram mais regulares, de 5 em 5 minutos e um pouco mais intensas. Eu ainda conseguia andar normalmente e assim continuei. Sentava e me agachava e começava a pensar que era hora de chamar o resto da equipe que me auxiliaria: a doula e a médica... Mas... Droga, eram 5 da manhã!! Era noite!! Eu não tive coragem de interromper o sono das pessoas... E fiquei por lá, andando, agachando, abraçando meu marido, rebolando. Confesso que minhas pernas estavam muito cansadas já a essa hora, mas sentar era mais desconfortável. Eu descansava, então, de cócoras.

 

Entre final das seis e início das sete horas pedi para que ele ligasse para a doula, Clarissa. Conversamos. Ela deve ter chegado umas 8:30 e decidimos ir logo para o hospital, pois as contrações estavam intensas e eu já fazia careta. Essa parte foi meio hilária... Foram ela e meu digníssimo consorte na frente e eu atrás, de quatro, apoiada numa bola enorme, a bunda encostando no vidro da janela lateral. Aquilo foi muito engraçado, mas delicioso, porque a bola relaxava tudo e eu ia falando ou pensando, não sei: nossa, que delicioso! Isso aqui está muito bom... O sol batia e me esquentava. Era muito gostoso mesmo!

 

Chegamos ao hospital Daher e fui andando até o quarto de parto humanizado. Encontrei lá a obstetra, a quem os meninos haviam ligado no caminho e conheci a pediatra que nos acompanharia. Cheguei e deitei direto no colchonete, de quatro, e ficava empinando a bunda para relaxar. Quando vinha uma contração, eu me levantava e escalava umas barras de ferro atrás de mim e foi assim até que a banheira de água quente estivesse pronta.

 

Antes de usá-la, no entanto, fui submetida a um exame de toque e então conheci o horror! Santo Deus, a dor que senti com esse exame não chegou perto da contração mais forte que mais tarde eu teria! Foi a única vez que eu chorei, de lágrimas caírem. Foi a única vez que gritei, pedi para parar e bati na perna da médica. Quando terminou, virei de lado, deitada em posição fetal e chorei... Mas só até a próxima contração. Confesso que pensei na hora: Deixa de ser besta, moça, o negócio está só começando e já vai dar chilique?!

 

E foi então que a banheira ficou pronta!

 

Céus, aquilo era o paraíso! A Clarissa e meu consorte preparam o banheiro para parecer uma sauna, com névoa e a água quentinha, quentinha, mas não muito. Apenas o suficiente para ser absolutamente deliciosa. Meu marido disse que até achou graça quando me viu entrando no banheiro e disse, sorrindo: “oba! está quente!” Disse que a minha cara se abriu num sorriso e se iluminou!

Escrito por Sulamita Saad às 09h26
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RELATO DE PARTO - I

Certo, não tenho a pretensão de ser efetivamente objetiva neste relato. Nem que os fatos sejam exatamente como os descrevo. Passados três meses, é claro que as memórias se embaralham, sem falar que o próprio momento, passado na “partolândia” é muito nublado, enovoado.

 

Na realidade, uma coisa eu digo aqui que fiz questão de manter em segredo e até de negar quando questionada: a bolsa estourou duas semanas antes. Mas parece que o “rasgo” foi pequeno e que a cabeça do bebê, encaixada, impedia a saída de toda a água. Eu sabia que havia acontecido porque ficava muito úmida, suada. Eram algumas gotas apenas, mas me molhava e incomodava. Eu ía ao banheiro a toda hora e sempre que me levantava dava uma olhada na cadeira para ver se não havia vazado. Eu esperava entrar em trabalho de parto e se ainda não entrara é porque não era hora . Então, dá-lhe beber mais e mais água para repor o que eu perdia.

 

Na última ou penúltima consulta, mais de uma semana após o início do vazamento, houve um exame de toque e a médica até perguntou: você não tem sentido algum vazamento de água? Eu olhei para ela, fingindo cara de assustada: Não! Por quê? A senhora percebeu algo? Ela completou: Parece que a bolsa estourou, mas a cabeça do neném deve estar segurando o líquido... Eu respondi: Nossa! Sério? Puxa, não percebi nada. E o que eu faço? Ela simplesmente disse que provavelmente nasceria naquele final de semana e que eu já estava com uns 2 dedos de dilatação... E nada mais foi dito nem questionado.

 

Passadas duas semanas (uma semana após aquela consulta) eu ainda estava esperando a neném chegar a seu termo, bebendo água feito um camelo, liberando líquido... Mas também estava bem. Quando não foi no final de semana prometido pela médica confesso que fiquei desanimada na 2a feira. Estava de saco cheio daquilo tudo. Já estava cansada de ser grávida e com vontade de chegar à segunda base, à segunda fase. Havia cansado de brincar d´aquilo...

 

De segunda à quarta-feira, então, foi um desânimo só. Eu não estava com paciência para nada, estava aérea e com vontade apenas de ficar deitada, em casa. Não sentia nada físico. Era só aquela preguiça e tédio que tantas vezes sentimos. Na quarta-feira a coisa piorou. Ou seja, estava completamente aérea mesmo. As pessoas falavam comigo e eu não prestava a menor atenção e depois, do nada, começava um outro assunto. Passei o dia na internet e nada era interessante. Fui para casa à noite, correndo, querendo chegar e deitar no sofá, assistir a Law & Order, House ou Bones, ou que tivesse na TV: Simpsons, Futurama etc.

 

Foi deitada que comecei a sentir umas “ondinhas” na barriga e pensei cá comigo: será que vai ser amanhã?! Meu consorte ligou, convidando para irmos à despedida de um amigo que mora em Jacarta e passava as férias em BSB. Pedi para ele ir, mandar um beijo a todos porque eu preferiria ver TV. Na realidade, queria ele meio longe (mas perto o suficiente) para que se o TP começasse de vez eu estivesse realmente sozinha e pudesse me tranquilizar... Estranho?! Mas foi assim!

 

Decidi ir dormir pelas 22 horas. Sabia que entraria em trabalho de parto de verdade durante a madrugada e pensei que seria melhor tentar descansar um pouco. Às 2:47 acordei com cólicas, exatamente como as menstruais, fraquinhas. Andei pela casa um pouco, esperando passar (poderiam não ser as tão famosas contrações, não é verdade?). Nem passaram nem pioraram. Meu respectivo acordou e me perguntou o que era e eu respondi que achava que daquele dia não passava. Ele perguntou se eu sentia algo e eu disse umas cólicas de leve, pode ir dormir que eu já vou. E realmente fui...

Escrito por Sulamita Saad às 09h26
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17/11/2011


Estou aqui de novo... Escrevendo enquanto como, ouço Los Hermanos e cuido (olho) de um pacotinho que respira e dorme. Muito estranho: há pouco mais de 3 meses eu sou mãe! Reviravoltas desde o último post? Não exatamente, já que esperei por nove meses e, como sou adepta da ideia de externo-gestação (falo sobre isso um dia...), por mais 3.

Eu consegui um parto normal. Engraçado... As pessoas me ligaram dizendo: “você conseguiu?!”, “nossa, que corajosa”, realmente como se isso fosse algo surreal! Realmente, pareceu: sou apenas a terceira de todas as minhas amigas, conhecidas e contraparentes que dá a luz de forma normal (todas as outras foram cesárea). O próprio plano de saúde deu uma guia de internação para parto cesárea, quando meu marido informou que seria parto normal, o rapaz não sabia o procedimento! “Nossa, estou há 3 meses aqui e é o primeiro parto normal... espera aí que vou ver como se faz”. Esperou mais de 1 hora! Até agora estamos com probleminhas quanto a compensação pelo plano porque colocaram pagamento de honorários de anestesista e não houve aplicação de anestesia... Yes.. Foi um parto quase natural meeeesmo! E porque eu pedi que não me dessem anestesia e que se eu pedisse, que me dissessem que não precisava, que estava acabando. É... corajosa... Mas, para ser sincera, eu realmente não senti necessidade de anestesia!

Na realidade, eu queria mesmo um parto sem qualquer intervenção! Sem nada mesmo! Acabei tendo que tomar ocitocina no final porque as contrações simplesmente ficaram fracas, não deixando a placenta nascer. A médica queria que eu fosse para o centro obstétrico para ela sair (é... eu pari no quarto de parto humanizado), o que me pareceu surreal! Até brinquei com a médica, dizendo que, po, depois de toda aquela preparação e do parto ainda teria de ir para o centro obstétrico?!

Infelizmente também sofri episiotomia (corte na região do períneo)... Confesso que esse corte foi quase como se eu tivesse passado por uma cesárea (não pela dor, que não senti), mas porque me senti mutilada, doída da alma, que só agora parece estar passando. Eu fiz dança do ventre, ioga, ginástica, pompoarismo, a princípio tinha um períneo forte, por que isso?! Mas, parece, o corte tinha sido necessário, pois teria havido um edema muito grande, um sangramento prévio (disse a médica, na hora, que todo o sangue que eu estava vendo não era do parto, mas do períneo, machucado) e, sem a episio (apelido carinhoso) o dano seria maior. De fato, houve um grande inchaço porque comecei a fazer força com 8 dedos de dilatação, e não 11 como teria de ser. Burrice a minha... E culpa da médica... :( Mas somente depois de fazer alguns exercícios com a doula (sim, eu contratei uma – e em outro post eu falo sobre ela) e de ela mesmo haver afirmado que também precisara de episiotomia no nascimento de sua filha, num parto domiciliar, e que havia um inchaço muito grande mesmo é que eu aceitei.

O bebê também não teve seu plano de parto seguido na íntegra. Foi a médica que cortou o cordão umbilical (seria o pai ou eu mesma) e acho que não esperou para parar de pulsar, pois a neném ficou suspirando. Uma pena e uma tristeza.

No entanto, ela ficou um tempo comigo, cheirando, eu a olhando, o pai rindo feito bobo. Depois foi para cuidados médicos e não tratada dentro do quarto, como eu pedi que fosse. A pediatra não deixou... Arghh! Mas o pai foi junto e ficou durante todo o tempo, vendo a limpeza. Não houve aspiração de nada, mas deram nitrato de prata e vitamina K. Não era para dar o nitrato, pois eu não tenho gonorréia (e os exames estava lá para provar!) e eu briguei com a equipe por causa disso. A vitamina K foi injeção, mesmo, e eu sabia disso. Coitadinha, já nasce sendo espetada! Mas diz o pai que ela não chorou, que ficou muito tranquila durante todo o procedimento e voltou logo para mamar.

O pai depois a levou para os parentes darem uma olhada e, então, começou minha maternagem... Uma nova função da minha vida. Eu então era mãe!

Escrito por Sulamita Saad às 13h20
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08/06/2011


MARCHA DAS VADIAS, TRAIÇÃO, MAMAÇO E COISAS DE MULHER...

Intenso debate em fórum de discussão de mulheres sobre a marcha das vadias. Antes, os debates sobre mamaço e, claro, outras coisas de mulher. Quanto à marcha das vadias, a questão começou quanto a nome (vadia??) e depois sobre o que seria uma vadia de verdade e sobre traição.

Eu particularmente nunca fui ciumenta, nem um pouco, mas já passei pela dor de me sentir traída. Ainda assim, não me passou pela cabeça pensar na mulher ou mulheres "responsáveis" por isso. Na realidade, sempre considerei que ela não teria nenhuma relação comigo, nenhuma obrigação de lealdade comigo, não me devia nada, nem mesmo respeito. Ela é livre, independente, resolvida (ou não) sexualmente...

Agora, ELE... Minha relação era com ele, ele é que sabia que tinha um relacionamento, ele é que era o adulto e que me havia prometido lealdade e ele é que me cobrava ser fiel a ele. Então, nesse aspecto, só ele é o canalha. Ela? Uma terceira beneficiada, que estava disponível ou se sentindo assim ou ainda sendo desleal com outra pessoa que não me dizia respeito, mas que só fez o que fez porque ELE quebrou os votos que ELE fez. Ela não fez nada. Eu sei que precisam de dois, pelo menos, para uma relação espúria, mas minha relação é somente com um e somente esse tem algo comigo.

Acredito que o pensamento de responsabilizar a mulher "traidora" tem muito a ver com aquela visão social de que o homem pode tudo e a mulher não. Tem a ver com a idéia de haver a "mulher santa, dona de casa, mãe dos filhos" e da "mulher vadia", a separação entre "mulher para casar" e "puta". Só que essa separação apenas oprime a mulher, qualquer delas, tanto a “vadia” quanto a “santa”. Sim, porque à “santa” é proibido vestir-se como bem entender sem ser estereotipada (lembram do caso Geisy?), à “santa” é proibido mostrar os seios, mesmo que para amamentar (apenas mulheres gostosas podem mostrar e em bel prazer aos homens... não é caso do mamaço?), à “santa” não é permitido ter liberdade sexual de escolha de seus parceiros sexuais, da quantidade deles e da forma como desenvolve essa liberdade (por mais que orgasmo seja um tema comum, quantas são ainda as mulheres que o sentem de forma apenas tradicional, que não se permitem realizar suas fantasias sem ser chamadas de “putas”? Ter mais de um homem na cama... O que o namorado vai pensar??). Também não é permitido à “santa” ser uma profissional sem culpa, mesmo tendo filhos.

Por outro lado, à “vadia” não é permitido o desenvolvimento de uma relação humana prazerosa com seus parceiros (ela é uma vadia, não deve ser levada a sério por nenhum homem, não tem direito a uma relação plena, de lealdade e diálogo, nem mesmo no trabalho). À ela também não é permitido satisfação sexual (não falo de orgasmos!), afinal, ela está à disposição do homem e da satisfação dele. É apenas um objeto, sim. Daí que não posso criticar a outra que sai com homem casado... Ela é quase uma vítima de uma sociedade machista. Ela é adulta, sim, sabe o que está fazendo, pode ser desbocada e até mesmo sair por aí gritando aos quatro ventos “mulheres segurem seus machos” ou “quando ele não está com você é comigo que ele geme” e outras baixarias que muitas dizem. Mas é sempre um outro que diz o que ela é, o que ela pode, até aonde pode chegar.

Em qualquer caso, aliás, é sempre o outro a colocá-las no mundo, a situá-las no que podem ou não, como são ou deixam de ser, o que é o corpo delas, para que serve, como deve funcionar. Aliás, esse pensamento até me fez lembrar uma outra relação, que talvez nem pensemos ter relação com tudo disso: a relação da mulher com o parto (natural ou cesárea?). Afinal, entre os diversos motivos pela existência dos altos índices de cesárea é justamente uma sociedade dizer que mulheres não tem condições de parir, que “não passa”, que ela “pode morrer”, que “não tem dilatação” ou até “porque o médico achou melhor” etc, etc.

Então... Marcha das vadias (com esse nome mesmo, porque não temos de ser santas), mamaço, movimento pelo parto natural e ene dessas coisas. Tudo isso tem a ver com a nossa colocação no mundo, com o que queremos ser, que mundo queremos ter e, mais até, para as que participam desse fórum: que mundo queremos para nossos filhos e filhas. Eu acredito em tudo isso... ;)

Escrito por Sulamita Saad às 10h24
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19/05/2011


O RETORNO DO RETORNO

Acho que tenho de me policiar mais para escrever aqui com uma regularidade ao menos semanal ou quinzenal. É que as coisas vão acontecendo... Ficar “sem fazer nada” muitas vezes pode significar fazer de tudo! E então acabar sem tempo para realmente fazer alguma coisa. O blog aqui não pode ser parado. Pelo menos, por enquanto, eu acho isso. Mas ele tem um problema: escrever aqui demanda tempo, muito tempo, que nem sempre eu tenho...

De qualquer forma ele está sendo meio meu psicanalista, já que, também em em razão do tempo, nunca consegui estabelecer um contato com um de verdade. Ele faz parte do meu questionamento do que eu sou e o que quero ser e essa loucura deve ficar por aqui ou dentro de mim. Melhor ficar por aqui...

O que eu tenho feito tanto assim para ficar mais de um mês fora?

Ah, primeiramente eu viajei. Fui a Salvador no último grande feriado do ano, apenas para descansar e aproveitar a praia, sem muitas visitas turísticas. De passeio mesmo, só ao Museu Rodin e ao Cine-Olho, neste último onde assisti a um filme surreal e a outro delicioso. Fiquei com inveja de Salvador por ter o Cine-Olho. Para ser sincera, quanto mais viajo, mais me decepciono com BSB! Acho que isso renderá ainda muitos, muitos posts, porque é incrível como uma cidade tida como a capital pode ser tão... Fraca! Em tudo!

Mas voltando a Salvador, acabei indo também ao Iguatemi! Para assistir a Rio! Um filminho bom, bem de diversão, sem muito mais. Fora isso, passeei de carro pela cidade, literalmente... Passei mais de 3 horas indo simplesmente de um lado para outro, vendo a cidade, o trânsito catastrófico, as praias, as áreas urbanas. Minha idéia de Salvador quase mudou! Simpatizei mais com a cidade ao ficar fora das zonas turísticas, que tanto me afligiram das outras vezes e compreendi melhor sua dinâmica de vida. Ainda assim, não é uma cidade simpática às pessoas. Pode ser alegre, carnavalesca, cheia de ginga, misteriosa... Mas para se viver nela, é caótica e pouco convidativa. Pelo menos parece mais com uma cidade real.

Na área de comes e bebes, destaques para O Amado, Paraíso Tropical, Mistura e Iemanjá, onde comi bem e fui bem atendida. Claro, tudo considerando que, à exceção do Paraíso Tropical (que possui a moqueca vegetariana e ainda um ou dois pratos muito interessantes sem absolutamente nada de carne), não há uma cozinha específica vegetariana (nesses restaurantes, claro. Não pesquisei restaurantes vegetarianos de Salvador! Ah, cabe lembrar que eu sou ovolacta...). Mas O Amado se dispôs a fazer uma combinação adorável entre dois pratos de seu próprio menu (Cuscuz Marroquino com Legumes e Salada Verde com Figos e Creme de Queijo Gorgonzola), porque ninguém merece o eterno risoto com queijo e tomate seco! O Mistura possuía uma massa com queijo grana padano e gorgonzola perfeita! E Iemanjá possuía uma boa combinação de “extras”, além de se dispor a preparar ovos para mim.

Além de Salvador, fui a São Paulo. Estava lá na Virada Cultural! E foi interessantíssimo andar de madrugada pela Sé sem ser morta ou assaltada umas 3 vezes! Sim, também estava lá a Cracolândia... Não dá para não ver! As pessoas dormiam na rua ao som de música altíssima, sem se preocupar com nada, nem com todas as outras pessoas passando. O metrô, disponível e de graça naquele dia, às 21 horas parecia o metrô do rush! Tanto que não consegui chegar ao meu destino. Descemos uma parada antes por causa da lotação e ficamos passeando, vendo o circo, pequenos shows e etc.

De volta à realidade de BSB, continuo estudando e muito. Vou às aulas, à tarde estudo com meus livros. Acrescentei aos meus estudos o projeto de mestrado, que já tem umas 6 páginas escritas, de 10, e uma parca bibliografia selecionada. Paralelamente, estou dando um apoio a um projeto social, mais procurando na internet, no meu tempo livre, editais de abertura de financiamento. Não é muito, mas tem sido interessante.

E, claro, tenho ainda dividido meu tempo com essa nova realidade de gravidez. Reforma da casa, para montar o quarto do bebê, visitas a médicos, participação em grupos de discussão sobre parto, cursos sobre cuidados com bebê e ainda como ter um parto natural... Até já fui a feiras de gestante! E, definitivamente, odeio fazer compras! Bem, confesso que tenho medo de me tornar uma mulher que só fala de sua gravidez, parto e filhos. Não trabalhar fora, no momento, complica um pouco, pois parece que o único assunto que eu domino agora é esse. Ou como andam os concursos da vida (que na atualidade não andam, estão parados). Pelo menos tenho o estudo! Para complicar, nesse tema de parto e filhos descobri que também sou “excêntrica”, especial, como diz meu digníssimo consorte... Queria saber em que forma fui criada... Mas eu me dedicarei a esse tema no blog da semana que vem.

Escrito por Sulamita Saad às 13h11
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07/04/2011


DA SÉRIE COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO...

1. Lembranças de um GURGEL... :

 Era segunda-feira, 18:30, sai de casa para ir à aula de ioga. Lembra do meu Gurgel? Pois é. Meu carro de verdade (atualmente um Renault) foi para a concessionária em razão de uma descascação (?) da tinta. Peguei de volta o antigo Gurgel que estava com meu pai para ser vendido (!). E, na segunda-feira, lá fui eu feliz e serelepe para a aula. Faço o mesmo percurso há anos e, portanto, sabia o tempo médio de demora. Ok, o trânsito estaria intenso, mas nada impossível. Mas eis que...

Sempre tem um “mas”, não é mesmo? Pois é. Até agora não sei o que houve exatamente, pois estava tudo parado! Todas as avenidas de acesso que eu poderia pegar estavam paradas, congestionadas... Decidi ir pelo eixo monumental: o trânsito seria bem mais intenso, mas como há semáforos seria mais fácil de andar e, qualquer coisa, há estacionamentos por lá, ao contrário das outras vias, mais expressas ou sem acostamento.

O trânsito estava lento, os minutos iam se passando e eu ficando cada vez mais nervosa, com medo de o carro esquentar. Sei lá, vai que ele explode, naquele trânsito? Quase desesperada, fazia o possível para alcançar a faixa lenta, da direita, pedindo licença para os demais. Tinha esperança de que, se nada de ruim acontecesse, eu facilmente alcançaria a entrada para chegar à aula. Se algo acontecesse, já estaria na faixa lenta e com vários acessos aos estacionamentos. Mas eu ainda estava na 3ª faixa!! Faltavam mais três para minha meta imediata...

E não é que o pior aconteceu?!

Ai, ai... Eu, grávida de 6 meses, num Gurgel fudido, de chinelo e roupa de ginástica (afinal, ioga eu faço descalça mesmo), no eixo monumental, em Brasília, fora da hora do rush, mas com o trânsito absolutamente parado (parece que houve uma manifestação por lá) e o cabo da embreagem quebra... Fiquei atônita porque justamente nessa hora os carros andaram! E eu ali, sem conseguir passar a 1ª marcha! Saí do carro e pedi licença para faixa ao lado.

É claro que, a princípio, ninguém me ajudou. Ao contrário, começaram a buzinar!! Até que um anjo parou o carro e saiu para me ajudar (os outros que esperassem, né?)! E começamos a empurrar juntos. Então um outro veio do ponto de ônibus de onde dava para acompanhar tudo e ajudou o outro a empurrar. Eu entrei no carro e fiquei manobrando até chegar à entrada de um dos estacionamentos da Esplanada. Quando estacionei, voltei para ver meus colegas, mas já haviam ido embora. Sozinha, desabei no choro desesperadamente, em razão do estresse pelo que havia passado. Ainda tive de esperar quase duas horas para que o trânsito acalmasse e alguém pudesse me socorrer. Cheguei em casa mais de nove da noite e até agora estou cansada disso tudo...

Lembranças de um Gurgel2:

Como desgraça pouca é bobagem, logo que meu pai avisou que o Gurgel estava consertado, peguei-o de volta. Na realidade, no dia seguinte já estava tudo ok. Então, ontem, acordei cedo e sai de casa 7:30 da manhã, para não pegar trânsito. Quando saía da quadra, para entrar em um balão, porém, fiz o carro morrer!

Eu sei, um absurdo de principiante. Mas acontece... Só que, como se não bastasse isso, o carro simplesmente não pegou mais! Tentei várias vezes e nada!

E se às 7:30 o trânsito na quadra está tranqüilo, percebi hoje que às 7:35 não é bem assim. Parece que todos os carros saem à mesma hora, pois simplesmente TODOS os carros saíram e uma fila imensa se formou enquanto eu empatava a saída. Não dava para empurrar, porque os carros simplesmente não tinham paciência de esperar. E não adiantou muito apenas ligar o pisca-alerta e colocar o triângulo na parte de trás do carro porque eles continuavam ficando atrás de mim, sem desviar! Mesmo tendo espaço para passar ao lado!

Até que meu digníssimo chegou (eu havia telefonado) e ele conseguiu segurar os carros enquanto eu manobrava para um estacionamento ao lado. Só que não conseguimos fazer o Gurgel pegar (acho que encharquei o motor! Burra!), já eram quase 8 horas e nós dois com compromissos para esse horário... Decidi que eu iria um táxi. Mas... Eu não disse? Havia só R$ 20,00 na carteira. Meu amigo tinha menos, só a passagem do ônibus! Eu não fazia a menor idéia de quanto, com o trânsito da hora do rush da manhã, gastaria para chegar à aula, mas era a única opção...

Claro, no percurso, o taxímetro não parava e o valor só subia! Eu estava com medo de não ter dinheiro e pedi para parar uma quadra antes. Foram R$ 15,00... e tive de ir andando mesmo, quase correndo... Quando cheguei, com mais de vinte minutos de atraso, esbaforida, cansada e com fome, lembrei que também havia  esquecido um lanche... Não, não há lanchonete por perto... Pelo menos, agora, o Renault já está aqui em casa, ufa.

Para terminar o dia:

Meu caríssimo esquecera um material para o trabalho e me ligou dizendo que estava voltando para buscá-lo. Como eu estava em casa na hora, combinei de entregar para ele na entrada da quadra, para ganhar tempo. Explicação 1: geralmente, ele vai de ônibus para o trabalho. Explicação 2: agora voltava de táxi. Então, peguei o material, desci e fiquei esperando ele chegar. Eu me vestia bem simples, com roupa de casa mesmo, de chinelo e um vestido solto e colorido.

Primeiramente, um rapaz parou e perguntou se eu sabia onde havia estourado o cano do esgoto. Informação bem normal, pois hoje, embaixo do meu prédio havia mesmo estourado um cano. Passei a informação com quem ele deveria falar e continuei esperando. E então é que o negócio acontece...

Passou um homem, cuja imagem nunca vou esquecer, desdentado dos quatro dentes da frente, usando camiseta vermelha, shorts azul, chinelo, aparentando uns quarenta anos, que parou e me fez alguma pergunta. Como eu não entendi direito, perguntei para repetir e foi então que percebi que era melhor não ter entendido nada mesmo... Ele me perguntava se eu estava ali esperando cliente, se aquele era o meu ponto, porque ele queria contratar meu “serviço”...

Acho que levantei a sobrancelha e disse um sonoro não e olhei para o lado. Ele continuou falando algumas coisas (não parecia palavrão ou xingamento, talvez estivesse bêbado) e eu procurando um socorro ao lado. Nessa hora meu “cafetão” chegou de táxi e ele se afastou. Não contei nada na hora (claro!), mas fiquei pensando: devo estar um tribufu... Porque ser confundida com puta de beira de quadra, ninguém merece... Da série coisas que só acontecem comigo mesmo...

Escrito por Sulamita Saad às 15h45
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05/04/2011


DAS DIFERENÇAS DE CADA UM

 Viver com o outro permite uma percepção incrível sobre as diferenças de cada um. A forma de atuação e de resposta às adversidades da vida varia incrivelmente de pessoa para pessoa, mesmo que seja sobre os mesmos fatos. Falo aqui, claro, especificamente sobre mim e meu digníssimo consorte.

Eu até poderia dizer que a homens e mulheres reagem de forma diferente em caso de conflito. O senso comum me autoriza a isso. Mas não gostaria de cair facilmente nas questões de gênero sem ter realmente base para isso. Realmente, não posso generalizar às diferenças entre masculino e feminino quando tenho apenas minha experiência para contar, seria simplificar demais as coisas.

Mas afinal sobre o que exatamente estou falando? Diferenças de reação, oras bolas!

Quando estou chateada, deprimida, de saco cheio de alguma coisa, entro no que chamo de “período de caverna”. Em outras palavras, eu me calo, deito na sala e simplesmente fico assistindo aos seriados policiais que me aparecerem na frente: CSI, Bones, Law & Order, House, Criminal Minds etc. Fico assim, morgada, no meio da sala, até dar sono de exaustão. Não tenho vontade de comer, nem de conversar.

Minha eterna companhia fica preocupadíssima com isso e a todo o momento sai de onde está e fica me perguntando se estou bem, se quero alguma coisa, se há algo que possa fazer por mim. Na realidade, nessas horas, o melhor que ele poderia fazer seria sair de casa ou simplesmente fingir que eu não existo. Mas ele nunca faz isso, pois acha que não é certo sair e me deixar sozinha daquele jeito, mesmo que seja para ir a uma festa infantil. Às vezes, porém, ele tem um insight e escolhe um filme idiota para vermos. Normalmente, ao final do filme, estou melhor e ele feliz.

Mas, em geral, após poucas horas a solução para o problema que está me atormentando aparece ou eu decido fazer o que tem de ser feito, tudo passa e eu volto ao normal. Quando termina parece que chorei uns três dias seguidos e as lágrimas apenas secaram.

Tenho, porém, outra forma de reagir a algum problema: uma ânsia de organização toma conta de mim! Normalmente, nessa fase, também um furor de me desfazer de coisas velhas, de doar outras tantas e de jogar tudo fora vem com força! Passo algumas boas horas fazendo isso e, normalmente, quando termino o que planejei a solução aparece e eu me sinto aliviada (claro, e algumas várias sacolas fazem a felicidade do Exército da Salvação).

Nessa fase não quero ajuda na limpeza da casa, não quero conversa, não me importo com muito mais coisas senão a de concluir o que eu quero arrumar. Mais uma vez, meu amigo fica desesperado: ele não entende como alguém pode gostar de arrumar a casa e fica logo achando que a culpa é dele! Que ele é que não está “cuidando” de mim de forma suficiente e passa a querer arrumar a casa também, para “me ajudar”. Claro, e fica o tempo todo perguntando se está tudo bem, se estou feliz, se há algo que possa fazer por mim, o que me deixa enervada...

Pois bem... Eu ajo assim nos momentos difíceis. Não sei se é certo ou errado. Estou apenas relatando. Também não me conheço tanto assim a ponto de diferenciar exatamente quando é um caso ou outro, mas sei que é assim. Meu respectivo, porém, tem outras formas de agir nos momentos de crise.

A primeira que eu percebi depois de passamos a morar juntos foi a “crise do domingo”, como eu chamo: aos domingos, às 17 horas, se ele não saísse de casa, não fosse passear, ir ao cinema, ver pessoas, tomar sorvete ou a um barzinho, ele ficava ansioso, nervoso, agitado e, na segunda, acordava meio de mal humor. Não importava se tivéssemos passado a madrugada de sábado numa festa ou se estivemos fora de casa, no domingo, desde a hora do café da manhã! Como ele passou a dar aulas na segunda de manhã, a “crise de domingo” foi amainando (ou me acostumei com ela e passei a sair de casa ou a voltar mais tarde).

Pois bem, quando há uma crise ou um problema, estabelece-se “a crise do domingo”: ele precisa sair, ir a um bar (não exatamente beber, mas ver pessoas, conversar, espairecer), ao cinema... Não importa quando seja, a que horas seja. È meio para espairecer, eu acho. E lá vamos nós ter de sair, porque, claro, ele não gosta de fazer isso sozinho (não importa o que esteja fazendo)... O bom é que quando voltamos, ele está leve, tranqüilo.

Assim como eu, porém, ele também tem outra forma de agir aos problemas da vida: sexo! Simples assim. Como eu mesma já o ouvi falar, nesses momentos ele “precisa” de sexo. Mas não é como todo dia ou como os momentos especiais. É um intercurso diferente, em que ele fica “estranho” (nem melhor nem pior), meio aéreo ou focado, nunca sei bem. Às vezes querendo ser machucado, arranhado, mais do que o normal; às vezes me machucando um pouco, sem querer, porque não está muito atenado ao que está fazendo. Depois, ao final, ele fica meio com cara de bobo, acho que se sentindo muito leve. É engraçado... E então volta ao normal.

Por que eu disse tudo isso? Porque essa semana passamos por um estresse conjunto. Trocamos os armários de casa (do quarto, da cozinha, do escritório) e, no início, parecia que tudo daria errado. Mudei-me para a casa dos meus pais, porque a casa ficou intransitável por uns dois dias. Uma semana depois, mesmo tendo voltado para casa, ainda estão sendo feitas pequenas coisas e ainda não sei quando será o dia da limpeza. Além disso, estamos sem internet, sem telefone e sem poder trabalhar em casa!

Assim, durante a semana que passou pude vivenciar exatamente todas as fases que relatei: passei pelo período da caverna e pela de organização (que foi ontem!) e meu digníssimo passou pela crise de domingo e pelo sexo ausente. Pelas mesmas questões, pelos mesmos motivos, quase ao mesmo tempo. Como compatibilizar o meu período de caverna com a crise de domingo dele é que foram elas... Mas compreender esses momentos (e não pensar que isso é uma provocação do outro ou que ele/ela é um chato) faz (e fez) toda a diferença!

Escrito por Sulamita Saad às 10h55
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25/03/2011


EU CONFESSO: NÃO SOU UMA PESSOA LEGAL.

Certo...  Nunca me preocupei com filhos. Nunca achei que isso seria um sonho, um desejo. Como algo que faz parte da biologia, do instinto, pode ser sonho? Sonho é querer ser bombeira, astronauta, primeira bailarina não sei de onde. Ser mãe, não. Por isso mesmo nunca vi na maternidade minha realização como “mulher”. Eu me realizaria de outras formas muito facilmente.

Em suma, não havia em mim o desejo de ser mãe. Havia tantas outras coisas mais para fazer... Meu digníssimo dizia que esperava meu relógio biológico soar. Nunca ouvi um blim-blom. Só sei que foi tudo muito rápido: um descuido, uma vez e não me veio à cabeça pedir, na hora, proteção extra.

E então eu estava grávida!

Foram 3 dias de choro, eu chorava enquanto dirigia o carro, em casa. Chegava ao trabalho com cara de assustada, parecendo um ratinho acuado. Foram umas duas semanas meio catatônica, pois não conseguia acreditar naquilo. Senti-me como uma garota de 16 anos que tem de contar ao pai que está grávida... O que iria ser da minha vida? Para onde eu iria? O que seria de mim?

Ao mesmo tempo, quando meu marido soube, quando eu cheguei em casa chorando e fiquei muda, deitada na cama, olhando para o nada, quando falei para ele entre soluços e me sentindo pior do que qualquer coisa que eu já me sentira, não dava para não ver aquela cara de plena felicidade dele. E a grande dúvida do que fazer: me consolar ou gritar de felicidade. Será que eu estraguei um momento único?

Eu pensei em aborto, claramente. Durante as duas semanas seguintes... Não adianta me dizer: para quê? Você já tem 31 anos, situação financeira estável, é casada... Nada mais natural. Não posso negar o que senti. Para completar, eu sou plenamente a favor do aborto e acho, inclusive, que deve ser fornecido pelo SUS como método de controle de natalidade, sim. Acontece que sou a favor da legalização. Não a favor de realizar as coisas em clínicas clandestinas... Não a favor de cometer um crime; eu apenas quero que isso deixe de ser crime (e naquela época eu passei muito por que muitas mulheres passam e acho que deveria haver em cada cidade um local para ajudar as que estivessem na mesma situação...). E acho que pensei tanto e disse para mim mesma: ok, não vou fazer uma cirurgia (que eu tenho pavor!), mas também não vou fazer nada que ajude isso (comer canela, fazer ginástica, passeios, ficar perto de gente que fuma, subir escadas de vários andares etc).

Deu quase certo...

Duas semanas depois eu fui internada com hemorragia. Cheguei em cada de um happy hour e fui tomar banho. Enquanto a água caía, eu sangrava. Posso parecer muito horrível agora, mas sair do banheiro com um misto de preocupação e alegria e informar ao meu digníssimo, entre dentes tremendo de frio, que precisávamos ir ao pronto socorro foi a parte fácil disso tudo. Difícil foi ver a preocupação dele... E depois passar por todos aqueles exames, hospitais (fomos a 3!) e descobrir que fora só um susto. Difícil foi fazer as ultrassonografias com 5 semanas de gravidez e já ouvir um coração que não era meu bater, ainda dentro de mim. Difícil foi ver, durante cada dia, durante todo aquele período, meu digníssimo rindo à toa, falando que me amava sem motivo, assim, de repente... E eu ainda passei 2 semanas de atestado, em repouso absoluto... O médico passou um remédio que eu não tomei e ainda enganei a todos dizendo que tomava. Bem, eu tomei na primeira semana... Mas deveria tomar até a 12ª.

Eu ficava deitada, vendo TV, aproveitando meu “recesso de natal” (atestado médico) e vez por outra meu consorte saia do escritório e ficava parado, me olhando do corredor, rindo... Outras vezes eu estava na cozinha comendo, quieta, e ele passava e me abraçava e dizia que me amava de um jeito bem diferente do que estava acostumada a ouvir. Andava rindo, mais bobo do que já é. E logo apelidou aquela coisinha de ervilha... Depois girino, então de camarão, etzinho, bichicho... A cada vez que ele via uma nova ultrassonografia um apelido era dado. Mesmo sabendo o que eu pensava daquilo tudo.

Minha sogra quando soube deu um grito de felicidade no meio da sala de espera de um consultório médico. Disseram que ela deu um pulo... Minha irmã começou a chorar de felicidade. Meu sogro me ligou, para me parabenizar e dizer que “estava muito satisfeito com tudo aquilo” (achei aquela frase meio ridícula. Parecia que eu estava tentando dar um herdeiro para ele e agora ele ficava satisfeito com o fato de eu ter finalmente conseguido). Só mina mãe ficou calma e sem grandes alardes: disse que bom, minha filha, agora se matricule na natação, certo? E continuou a fazer compras... Eu adoro a minha mãe.

E então que as coisas foram se sucedendo e se passaram os dias; eu não tinha coragem de falar mal desse momento para ninguém (só a algumas pessoas, mais próximas, com quem conversei, que me consolaram). Não tinha coragem de estragar esse momento de ninguém. Bastava o que eu já sentia, não é mesmo? Ok... Não sou tão ruim assim... O tempo foi passando e essa semana fiz 20 semanas de gravidez. E estou grávida!

Ainda não sei como as coisas vão ser. Meus sentimentos são muito ambíguos, mas nunca são de extrema felicidade por isso. São mais de resignação ou de não pensar nisso. Por outro lado, comecei a aceitar esse fato e a pensar em como tudo vai se desenrolar, a pensar no parto. Minhas esquisitices já se manifestaram também aqui: me inscrevi num fórum de grávidas, comecei a pesquisar cursos e a brigar para ter um parto natural (dispensei o médico anterior que cuidou de mim na época dos sangramentos por ser a favor de cesáreas e passei a procurar alguém mais alternativo... Mas isso é outra história). E estou aqui. Só não sei para onde vou...

Escrito por Sulamita Saad às 18h11
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16/03/2011


MEADA DO FIO 8

Apesar de ter um trabalho que era um saco (ficar numerando página de processo!), eu estava bem! Sentia saudades da vida anterior. Sentia saudades da mediação e de todas as conquistas que tive. Sentia saudades da Fulana e dos nossos sonhos. Sentia saudades de uma espécie de status que eu não tinha mais (afinal, eu chegava, sentava na minha mesa e era só mais uma, com cinco chefes acima de mim; eu era quase invisível – só não era mais porque, como sempre, meu temperamento contestador às vezes se manifestava). Mas reconheci que precisava passar por aquilo... Eu me sentia tranqüila e nunca havia me sentido assim!

No período em que estive nesse órgão público, por exemplo, viajei para a Serra Gaúcha (até fiz curso de degustação de vinhos!), para São Paulo – inúmeras vezes, Curitiba, Paraty, Poços de Caldas, Florença, Roma, Nápoles... Tirei férias!! As primeiras da minha vida profissional! Emendei feriados, descansei muito!

Ainda assim, comecei a passar em alguns outros concursos, melhores do que onde eu estava. Bem, acabei não sendo chamada (até agora) para qualquer deles, mas vi que fui melhorando e, para ser sincera, isso me deu um grande estímulo! Paralelamente a isso, é claro que eu estava ainda insatisfeita (acho que esse é um problema meu, já havia percebido antes...): trabalhar naquele órgão e ficar por lá não seria legal (era até desperdício de dinheiro público pagar um servidor nível superior para ficar numerando e carregando processo!), mas eu já não pensava tanto em sair em 2 anos e voltar para a mediação com a Fulana (onde ela estava? E eu nem estudava mais o assunto!). Porém precisava sair...

Durante todo esse tempo, meu consorte me desafiava: queria que fizesse mestrado e que eu saísse daquele trabalho e voltasse para a mediação (questão de dinheiro não era mais problema! Mas também nunca foi o único problema nas minhas relações com a Fulana, conforme disse antes) e eu recusava. Depois que ele tomou posse no trabalho dele, então, falou claramente para eu voltar, porque os investimentos no escritório e os gastos com a casa estavam tranqüilos e poderiam ficar com ele.

Então eu estava na seguinte situação: estava bem física e mentalmente (sem estafas e grandes insatisfações, fazendo as coisas de que gosto), emocionalmente (vivemos muito bem!), socialmente (continuei sem muitos amigos, mas relaxei quanto a isso e a aproveitei mais os eventos e adotei os amigos do meu digníssimo, que já suficientemente muitos), financeiramente (eu ganhava medianamente, mas o suficiente para viver com tranquilidade e meu consorte ganhava o triplo do que, antes, nós dois juntos ganhávamos...), mas ainda com um pequeno vazio profissional.

Ok, o que houve agora, não é mesmo?

Relendo o que fiz até agora até dá para perceber. O trabalho, para mim, é parte de mim. É a minha função na sociedade, é quase o que eu sou, o que eu produzo, o que eu penso. Ele não foi nunca apenas minha fonte de renda. Sempre, é claro, foi minha principal fonte, mas não apenas isso. Daí minhas escolhas profissionais: o programa de direitos humanos, sair daquela imobiliária, me dedicar àquele escritório, amar o provita, investir em um escritório direcionado à mediação e em um programa social que a promovesse e minha insatisfação com o trabalho de então. Ele também precisa arcar com meu equilíbrio pessoal... Trabalhar “na minha área” não é suficiente. Ganhar bem não é suficiente. Trabalhar com a técnica apenas também não é suficiente. Ter um trabalho fácil nunca foi o objetivo. Eu preciso de mais. Eu preciso, sim, ter uma remuneração que abarque meus anos de estudo, minha dedicação. Eu preciso de desafios também e de quebrar a cabeça. Preciso amar e me apaixonar. Viver apenas, ir a churrascos aos finais de semana, casar, ter filhos, vê-los crescer e morrer não é suficiente; aliás, não é sequer viver para mim!

Por isso minhas outras escolhas na vida; daí minha escolha pelo vegetarianismo (ovolacto, ok, mas vegetariano ainda), daí minha busca pela ioga e meu amor pela dança do ventre, daí minha escolha por estudar direito... Daí tantas coisas mais! Se eu me desviei em algum caminho foi muitas vezes por uma espécie de ingenuidade (céus, como eu fui e sou ingênua...) e algum tipo de medo.

Então que eu cheguei no final do ano passado. 2010, 30 anos, mulher e mais uma escolha na vida, mais duas reviravoltas.

Eu trabalhava em um órgão público, ou melhor, uma autarquia. Queria algo mais, que atendesse a todos os anseios que coloquei acima, estava com pouco tempo e meu marido se dispôs a atuar como provedor. Engoli meu feminismo e minha independência. Acho que essa foi a única coisa que não tinha feito até então. Tinha agora um objetivo mais claro: um concurso público, que atendesse aos meus anseios. Ainda não conseguira nenhum, mas sabia que o caminho não seria fácil, pois normalmente estuda-se 3 anos para tal. Precisaria estudar. Precisaria me focar e escolher realmente o que fazer. Todos os colegas de trabalho apoiando minhas idéias...

Decidi, sim, sair da do meu trabalho Para estudar apenas, tinha todo o esquema montado: de manhã, aulas no cursinho; à tarde, estudos na biblioteca do trabalho do meu digníssimo; à noite ginástica, ioga e uma rápida leitura de algo mais leve, extra...

E enquanto cumpria meu aviso prévio uma notícia bombástica: eu estou grávida...

Onde eu estou agora? Para onde eu vou?

Fiquei confusa, claro. Ao sair de vez do meu trabalho até enviei um e-mail para a Fulana, informando as novidades e perguntando se eu poderia voltar (uma recaída?). Ela me respondeu que estaria viajando para o Canadá, retornando não sei que dia. Eu esperei o retorno e enviei novo e-mail... Ela me respondeu que estaria em viagem até dia tal e que ao retornar nós conversaríamos. Eu esperei ela retornar e me responder. Ela não fez isso. Enviei um novo e-mail... Ela nunca me respondeu... E eu respeitei isso. Ou acho que sim... Agora estou seguindo aquele horário planejado. Pode parecer estranho, mas estou tranquila. Porém agora acho que seria bom voltar de vez ao blog e tratar aos poucos desses novos assuntos, pois, ao contrário do que eu escrevi até aqui, olhando para trás, agora eu estou no presente, mas olhando para o futuro. E eu nunca fui bem em perceber as coisas enquanto elas aconteciam...

Escrito por Sulamita Saad às 10h52
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MEADA DO FIO7

Naquela autarquia meu trabalho era um saco, principalmente se considerarmos o nível de responsabilidade que eu tivera, em qualquer trabalho! Era quase só numerar processos administrativos de convênios ou preencher despachos pré-prontos, imprimir e enviar para aprovação do superior. Eram 8 horas assim! Mas me atendia em uma coisa: eu chegava em um horário, sentava no meu cantinho e na hora certa saia, sem me preocupar com mais nada... era uma tranquilidade!!

Mas minha saúde também estava abalada. Eu pensava em continuar a noite com as mediações, como fizera antes, mas com 3 dias no novo trabalho eu estava com 7 dias de atestado médico! Doente, sim. Minhas alergias aumentaram (eu nunca tivera antes alergias!!). Em 6 meses acabei desenvolvendo uma espécie de urticária, também, e ainda fazia tratamento de um cisto no ovário. De acordo com os médicos, eu tinha alergia a poeira... Mas ninguém sabia que urticária era aquela... Eu viva cansada e com sono... No início de 2009 tinha seqüências de infecção urinária e eu fazia tudo certo, justo para não ter, estava uma neurótica! Cheguei a dormir 12 horas por dia, mas me sentia cansada!!

Fui em vários médicos... tomei 8 caixas de remédios diversos em 2 meses! Fui a alergistas, clínicos gerais, urologistas, ginecologistas e nada...

Eu me sentia a mulher mais frágil e fraca do mundo! E me sentia com raiva: ninguém nunca estava doente como eu!! E só eu não conseguia fazer as coisas que eu queria!

Como meu trabalho era o do serviço público, é claro que eu deixava de lado a mediação... Eu faltei tanto a esse trabalho que eu tinha vergonha de usar meus atestados, mas quando não tinha licença, tinha médico toda a semana e eles nunca marcavam fora do horário de expediente...

Eu fui deixando a mediação aos poucos... A Fulana também não entrava tanto em contato comigo e o tempo foi passando... De repente eu estava há 3 meses sem falar com ela... depois 6 meses... Todo dia eu pensava em marcar uma reunião, alguma coisa, e esquecia... deixava passar...

Também me sentia super relaxada (apesar dos meus problemas de saúde), ia a ioga, à ginástica, tinha dinheiro todo final de mês, sem precisar contar trocados nem me desesperar, nem me preocupar se as canetas haviam acabado, se havia post it no escritório ou se a conta do telefone estava paga. Também estava convivendo com um pessoal que pensava em coisas diferentes: todos só queriam saber de concursos, todos só queriam um trabalho que pagasse bem no final do mês para que eles pudessem fazer as suas próprias coisas e ninguém fazia tanta questão de ser rico ou salvar o mundo... Enquanto isso, até meu consorte passou em um excelente concurso, na própria área de atuação dele (produção de TV), e começou a trabalhar em algo de que gostava, com pouca carga horária. É claro que eu fui bem influenciada! Eu até comecei a estudar de verdade em casa, à noite!!

Acabei fazendo, lá pelo idos de outubro de 2009, até um cursinho, de 5a a sábado. E eu gostei de estudar! No semestre seguinte, 2010, já fazia um curso semestral, aos sábados, mas ainda me sentia muito cansada!

Entre minhas viagens a médicos, acabei descobrindo um endocrinologista. Fiz uns 32 exames e, claro, descobri que tudo estava desregulado: ocitocina, triglicérides, ferritina, cobre, zinco, magnésio, glicose... Eu estava até com suspeitas de resistência à insulina! Um horror! Me senti péssima... Mas também aliviada... Pelo menos eu não era aquela pessoa toda doente e cheia de dores. Eu apenas estava doente! Além disso, o médico foi claro que meu problema poderia ser resolvido com adequação da alimentação e com exercícios físicos e me encaminhou a uma nutricionista, além de passar umas vitaminas.

Bem, eu fui à nutricionista, que logo me passou uma dieta (vegetariana!) de quase 2.000 calorias (1972!), além de exercícios físicos todos os dias (de segunda a sábado) e vitaminas, muitas vitaminas. Pois bem... Eu comecei com todas aquelas alterações, quase 5 kg acima do meu peso normal e 25% de gordura corporal. Iniciei os trabalhos e segui tudo à risca. Em poucos meses, menos de 6, perdi os 5 kg., regularizei todas as minhas alterações e passei a 19% de gordura corporal! Minhas roupas caiam e eu podia finalmente voltar a usar umas roupas que eu queria tanto, mas o melhor: desde então não me senti mais cansada ou doente, aliás, não fiquei mais sequer gripada e consigo acordar sozinha e bem às 6:30 da manhã, mesmo dormindo depois das 23 horas! E enquanto essas alterações se davam eu ainda fazia um cursinho todos os dias, à noite!

É que os estudos e cursinhos anteriores eram sem muito foco, inicialmente, apenas para eu saber como estudar, já que nunca antes havia estudado realmente. Mas, com o tempo, esse estudo se mostrou superado: eu não tinha mais para onde ir, pois apesar de estar rendendo alguma coisa, ainda não era um estudo de um bom nível. Confesso que fiquei com muito medo de começar um cursinho com foco, direcionado, diário, em razão do cansaço e da idéia de que não poderia dar conta (oras, bolas! Na época da faculdade eu estudava, fazia musculação e trabalhava, fazia dança do ventre e ioga e dava conta!). Meu consorte ficou igualmente preocupado e até não queria. Mas...

A Fulana não me procurava, eu não a procurava, e trabalhava de 9 às 6 horas, sendo meu trabalho a 20 minutos a pé de minha casa, tinha 1 hora de almoço, o fazia em 40 minutos e ficava eu estava na internet, conversando com os colegas ou estudando o resto do tempo. Fora disso, fazia ginástica, ioga, estudava à noite, aos finais de semana, mas também não deixava de passear uma vez ou outra (apesar de essa não se minha prioridade). Estava tudo bem tranqüilo. Quando comecei a fazer o cursinho todos os dias, diminui meu tempo de estudo à noite em prol das aulas, mas apenas isso, ou seja, as coisas continuaram a andar bem!

Escrito por Sulamita Saad às 10h52
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MEADA DO FIO 6

 Com a associação eu tive contato com inúmeras pessoas, as mais variadas, grandes empresários. Fiz grandes contratos e parecia tudo promissor. Diante da estagnação das atividades com a Fulana, eu ia me ocupando com outras coisas... Mas sem abandonar os trabalhos com a Fulana, claro! Nós adorávamos!

Era até engraçado, eu lidava com um pessoal que ganhava mais de 20 vezes mais do que eu! E tinha quase o triplo da minha idade! Eu me achava o máximo. Mas parecia a nobreza absolutista: só tinha pose, nada de posses, privativas daqueles grandes burgueses o que me deixava muitas vezes desesperada!

Eu também achava aquilo muito constrangedor. Não tinha “traquejo” social para conversar com esse povo (eram mundos tão distantes!), todos eram sempre tão sensíveis, amigáveis, conversadores, mas todos pareciam me fazer de idiota! Querer que meu trabalho desse muito errado!

Isso não foi tão invenção da minha cabeça, não! Foi nessa época que um reencontro me marcou muito: Futrica! Aquela ex-sócia de quem nos separamos, eu e Fulana, após uma briga homérica! Pois bem... Achei que ela havia seguido em frente, como nós. Eu não queria ter de tratar com ela, mas ela era responsável por um dos parceiros que eu queria para a associação comercial. Eu havia montado um projeto de reconhecimento da ACDF perante advogados, como câmara de mediação. E ela era a representante da OAB no que se referia a mediação...

Eu deveria ter abandonado esse projeto assim que descobri esse fato, mas não (meu terceiro arrependimento?). Achei que nossos interesses poderiam se mostrar superiores a nossas desavenças (cara, eu sou muito ingênua, nunca daria certo num negócio próprio...)... Passei o projeto para ela... E alguns meses depois vi parte desse projeto ser realizado sem a ACDF, sem a Fulana, sem o meu nome... E mais: soube ainda, por um conhecido, que, em uma reunião com um parceiro que eu queria para a ACDF ela vinculou a aceitação da OAB aos projetos desse parceiro a não fecharem contrato comigo!!! Não foi com a ACDF, foi exatamente comigo! Quem era esse conhecido? Um psicólogo que participou da reunião pois também era um dos consultores envolvidos...

Isso foi em abril de 2009... Quando eu escrevi o último post, estava nessa situação. Estava absolutamente vazia... Sem dinheiro (tudo o que eu recebia era reinvestido na mediação, mas sempre era pouco), vendo todos os projetos caírem por água abaixo, ser passada para trás, traída (a questão da Futrica não foi a única, foi apenas a gota d´água...), vivendo uma bagunça com a Fulana, mesmo que fosse uma bagunça que eu adorasse. Mas estava cansada também. Ok... Era abril de 2009 e eu ainda não havia tido férias de verdade desde 2004!. Havia viajado, isso sim, claro... Mas nada de “desligar”. Aliás, meus problemas de saúde iniciados no provita só aumentavam! Eu agora tinha artrose (mesmo que fosse só bem de início), bursite e tendinite e vivia cansada, sem ânimo para nada, só queria dormir! Os clientes, em relação a Fulana, não aumentavam; os valores arrecadados eram escassos, nós não tínhamos foco, não nos reuníamos, os clientes que haviam reclamavam e, para completar, desenvolvemos um projeto social sobre mediação que era lindo! MARAVILHOSO! Mas nos dedicarmos a ele significava não nos dedicarmos aos outros e ele era o único projeto que não trazia dinheiro, só custos, só ônus...

Mas eis que no ano anterior eu fiz alguns concursos... Qualquer coisa que me desse alguma segurança financeira! Qualquer coisa que fosse mais do que eu ganhava à época! Qualquer coisa em que eu não precisasse ficar bajulando por meses não sei quem para conseguir algum contrato e ainda teria de lidar com aquisição de notas fiscais ou alvarás e licenças, sozinha, e no final ainda falhar!...

E eu passei em um, para trabalhar para uma autarquia. Nem sei como passei... E fui chamada em junho de 2009... A Fulana me questionava se eu realmente assumiria, parecia que as coisas estavam dando certo para ela (claro, ela ia a diversos eventos, era chamada para um monte de coisas, e tinha o projeto de mediação social, mas eu...). Eu dizia que seria apenas por 2 anos, que seria para conseguir um aporte financeiro, que não estava mais dando conta, que precisava cuidar um pouco de mim, mas que eu continuaria a apoiá-la em tudo, mas que precisava desse tempo.

Naquela época eu via aquela situação como o período de mestrado dela. Ela não teve tempo para se dedicar a ele e eu, mesmo aos trancos e barrancos, segurei as pontas? Agora era o meu momento de ter um tempo... e eu precisava muito disso!

Então que, de novo, deixei meu trabalho, por um outro, em nome de segurança... Acho que não me arrependo disso. Sinto saudades. Mas não pareço me arrepender...

Escrito por Sulamita Saad às 10h50
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MEADA DO FIO 5

Por que eu me arrependi de sair, mesmo com aquela situação toda? Porque eu gostava do trabalho; eu me sentia bem fazendo ele; porque finalmente tinha um contrato que me oferecia uma certa segurança patrimonial (o salário não era tão alto, mas era razoável, digno e mais do que eu ganhava no escritório anteriormente, e tinha toda aquela história de CLT e a certeza de que não iriam dispensar alguém do provita por qualquer motivo) e pessoas legais para trabalhar, de todos os tipos, classes sociais e formação profissional. Não me enriqueceria, mas era enriquecedor!

Mas eu não saí assim de mãos vazias nem o arrependimento foi assim tão imediato. Primeiramente, a mediação com a Fulana havia conseguido alguns poucos clientes e, em um certo momento, eu não tinha horário para trabalhar, pois as mediações só poderiam ocorrer à noite, de 5a a 6a. Isso porque durante o dia, havia o provita (e em algumas noites também) e, durante a noite, às terças e quintas, eu tinha a pós-graduação (na época da minha saída, porém, eu já estava fazendo a monografia). Algumas vezes, eu também tinha aulas da pós às quartas... Não eram muitos clientes, mas só podíamos realizar 1 mediação por dia, após as 19 horas, até umas 22, no máximo, e sempre que eu não tinha um compromisso extra no provita ou na pós. Além disso, eu havia recebido uma proposta para dar aulas em uma faculdade e uma consultoria para o tribunal de justiça, com perspectivas de crescimento, pois um programa de mediação começava a ser implantado por lá. Diante do meu cansaço de tudo e da esperança de novas perspectivas, eu decidi sair...

E as coisas não sairam como planejado... Em um ano, o programa de mediação do tribunal foi cancelado e eu fui demitida da faculdade, bem no meio da preparação para meu casamento. O programa foi cancelado por questões internas do tribunal. Minha demissão se deu por questões bem simples: os alunos não me acharam boa professora e eu realmente passei uma imagem de insegurança para eles, de ser “boazinha” demais, de não ter tanto conhecimento assim.

E a mediação? Bem... Não evoluímos tanto quanto eu esperava...

Realmente achei que, estando livre de outros compromissos (provita e pós) teria espaço para encontrar mais clientes. Além disso, poderia me dedicar mais à organização e regularização do escritório. Só que eu tinha mais tempo para isso, sim. Mas a Fulana, não. Ela estava fazendo mestrado...

Por mais que houvéssemos combinado que, tudo bem, ela poderia se dedicar ao mestrado enquanto eu cuidaria da parte interna do escritório (contador, banco, marcação de horários etc), as coisas funcionavam assim: eu ia ao banco, ao contador, fazia o plano de negócios, pensava na página na internet, atendia aos telefonemas... Mas não podia implementar nada de fato. Afinal, éramos sócias e dependia da decisão dela também. E a Fulana estava ocupada com o mestrado, com a família, ou sem dinheiro, e tudo demorava mais de duas semanas para ser discutido uma primeira vez! E, claro, discutir uma vez nunca era suficiente...

Ainda havia a questão de captação de clientes. Eu já havia dito anteriormente: nunca fui muito boa com contatos, não conhecia pessoas suficientes. Parece que a Fulana também não. Éramos muito certinhas, também... Começamos a ter contatos, mas pouco sabíamos como nos aproveitar deles.

Por outro lado, também tínhamos algumas divergências e desencontros. Por exemplo, eu achava importante ter um plano de negócios e, depois, implementá-lo. Fiz tudo sozinha, então. Mas a Fulana não achava importante implementar nada: era caro, era demorado, complicado. Para que isso? Eu considerava que ter um contador e seguir suas orientações eram importantes, mas a Fulana, que já tinha tido um negócio, nunca se preocupou com isso. Poderíamos conversar com um estudante. Mas alguém conversava? Aliás, alguém conhecia algum? E outra: para a maior parte dos nossos problemas um estudante não poderia resolver... Um outro exemplo: fechamos com um contador. Ele fez nossos livros, apontou os problemas e o que poderia ser sanado. Esses livros foram entregues no escritório do marido da Fulana (usávamos uma sala emprestada dele) e ele levou para casa. A Fulana me informou que eu precisaria assinar (ela já o havia feito). Eu fui a casa dela e assinei. Mas durante a semana, por algum motivo, não poderia devolver ao contador para registro. Então, pedi que ela apenas entregasse ao escritório do contador. Bem, acho que os livros nunca foram entregues... Ela simplesmente se esquecia....E isso começou a acontecer também com os poucos clientes que tínhamos! Esquecíamos de alguma coisa, de algum detalhe, de entrar em contato e o tempo passava...

Eu ficava desesperada, mas também não conversava tão abertamente assim. Eu sempre fui de evitar conflitos com pessoas de quem eu gostava e eu considerava a Fulana mais do que uma sócia uma espécie de amiga! Logo, não discutia realmente e deixava tudo por panos quentes. Não tínhamos uma rotina de reuniões, de discussões e, quando tínhamos, não implementávamos a maioria das nossas próprias decisões! Tudo era um grande sonho! Para complicar, eu ficava a maior parte com a parte chata, com essas partes internas, e a Fulana com a parte legal: ir a reuniões, palestras, dar palestras, falar em público, conhecer pessoas... Eu estava sempre ocupada com alguma outra coisa e sempre pedia para ela ir. Para complicar, logo que fui demitida da faculdade fiquei muito desesperada por estar sem dinheiro (estava organizando o casamento!), mas também recebi uma outra proposta de consultoria, de prestação de serviço, para a associação comercial do distrito federal (isso era praticamente graças à Fulana, e um dos contatos dela!). Era para implementar a câmara de mediação e arbitragem dela, que já existia há 10 anos. Era o assunto com o qual eu trabalhava!!

Escrito por Sulamita Saad às 10h49
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MEADA DO FIO 4

 Paralelamente a isso, os grupos de mediação começaram a ter mais sentido. Um deles em especial, continuou os encontros e deles saiu a idéia de abrir um escritório de mediação! Era o meu sonho à época! E havia acabado de ficar livre do trabalho... Aliás, aquela dedicação toda ao escritório teve consequências: eu saí de todas as atividades físicas que praticara, de todos os cursos, só a mediação ainda havia ficado, porque era apenas 1 vez por mês! Então, estava complementa livre, sem saber o que fazer, perdida com os estudos , para a defensoria e sem nenhuma esperança de passar (a prova seria em dezembro!)

Em quatro meses montamos um escritório para trabalhar com mediação familiar. Houve uma festa de abertura! Eu paguei o que eu não tinha (mentira, claro, porque sempre fui muito controlada, e sempre tive reservas, mas, como eu disse, eu sai daquele outro escritório sem extras...) e acho que entrei numa roubada enorme! As brigas com as sócias não tardaram a acontecer. O que acontece quando as pessoas decidem fazer alguma coisa sem qualquer planejamento e sem conhecer bem os parceiros, tudo no impulso? Por mais que, àquela época nos conhecêssemos há mais de 1 ano, em dezembro mesmo a sociedade se desfez com uma briga fenomenal! Eu exatamente não estive envolvida em nenhuma briga, que ocorreu mais entre duas sócias, a Flávia e a Fabíola, mas acabei me posicionando mais a favor de uma delas, da Flávia. O rompimento com a Fabíola e as outras sócias foi bem traumático, sendo que até eu, em um certo momento, fui verbalmente agredida porque “era muito educada”. Acabei chorando aos prantos porque muito do que eu sentia em relação àquele escritório (eu não era humilde) meio que jorrou ali...

Com a sociedade que nunca houve desfeita, acabei mantendo contato com a Flávia. Combinávamos no gênio e, à época, nos anseios quanto à mediação. Começamos a trabalhar em conjunto, bem aos poucos.

É claro que, um mês antes do fim, acho que já percebendo o que viria, ou em razão de uma certa insegurança financeira, já procurava uma outra alternativa de renda. Na realidade, quando fui entregar o convite para a inauguração do escritório na UnB (nem me lembro a quais professores!), vi afixado um edital para seleção de advogado para o Provita. Bem, o provita era o programa de proteção a testemunhas e vítimas de violência. Quando eu trabalhava com direitos humanos, ainda estagiando, conheci o programa e sempre tive uma certa vontade de fazer parte. Achava o trabalho o máximo! Achava que não tinha muitas chances de sucesso, porque haveria prova e entrevista para a seleção, mas me inscrevi! O salário, à época, era razoável e totalmente legal, pela CLT.

E não é que eu fui aprovada? Bem no meio daquela confusão de brigas de sócias... De perdas financeiras, de dúvidas sobre o faríamos então, eu fui aprovada para advogada do PROVITA!!

Então ficou assim: eu estava com um emprego formal razoável financeiramente, fazia minha pós-graduação e, juntamente com a Flávia, comecei a trabalhar com mediação efetivamente. Aos poucos fomos conseguindo alguns clientes! E, em suma, eu trabalhava em três períodos!!!

Só que no provita o trabalho era assim: em oito meses eu vi três tentativas de suicídio na minha frente, trabalhava com codinome e não podia dizer a ninguém da minha familia ou ao meu namorado onde eu estava, com que eu estava e a que horas chegaria (algumas vezes nem eu sabia dessas informações!), ficava de plantão durante 1 semana e, nesse período, dormia com um telefone celular debaixo do travesseiro para o caso de uma emergência. Numa delas, passei a noite na ala psiquiátrica do HRAN, ao lado de pacientes perigosos, amarrados! Numa outra, viajei, para cuidar de umas crianças, com uma moça ameaçada de morte pela polícia civil... Eu é que tinha de protegê-la (e nem porte de arma eu tinha, nem sabia artes marciais)... Em outra ocasião, passei uma tarde inteira num motel de 5a categoria, com um homem desconhecido, numa cidade que só tinha uma coisa funcionado àquela hora: o puteiro! Em uma outra ocasião ainda eu saí de casa às quatro da manhã, voltei às 9:30 e, às 8:00, estava novamente no escritório do provita. Meu almoço durava 40 minutos, o local era no CONIC, onde da sala de trabalho eu poderia ver sessões de strip tease às 15 horas, e o calor e a poeira era insuportável... Comecei a fazer ginástica, ou melhor, tentei fazer ginástica nesse período, mas desisti depois de faltar inúmeras vezes e, num certo dia, ao olhar meu celular (eu não estava de plantão) ver 6 ligações do provita querendo saber onde eu estava que não havia chegado (estava meia hora atrasada...). Tentei voltar a fazer ioga... mas mais de uma vez, imediatamente ao estacionar, tive de atender ao plantão e partir para algum atendimento. Os dirigentes do programa, todos, tomavam remédios para dormir... E àquele jeito, minha saúde também estava se esvaindo em estresse: a cada mês eu tinha algum tipo de infecção. Comecei a ter sucessivas infecções urinárias, crises alérgicas, gripes de difícil cura... Aguentei 8 meses e pedi para sair.

Uma colega da época disse para eu não sair, para esperar. Em pouco tempo eu teria férias e as coisas melhorariam (alguma vez aí acima eu mencionei férias? Pois é... eu nunca havia tirado férias, desde antes de 2004, quando me formei. E aquele era o ano de 2007). Ela me falou que eu me arrependeria, que eu deveria antes tentar alguma licença para tratamento de saúde e outras coisas. Bem, eu tive um problema nas cordas vocais, passei duas semanas sem poder falar uma única palavra e o médico não me deu atestado de afastamento, mesmo eu explicando como era o meu trabalho. Minhas questões de saúde não eram tão sérias assim, eram só corriqueiras demais, em razão de estresse... Eu apenas decidi sair. E, claro, esse foi o meu segundo arrependimento profissional.

Escrito por Sulamita Saad às 10h47
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