BELÍSSIMA... HUF!

Talvez eu esteja em uma fase excessivamente ranzinza. Ou talvez nada tenha a fazer senão ver defeitos nos outros, mas, definitivamente, certas coisas me revoltam e, mais a mais, pouco me resta senão escrever por aqui.

 

Semana retrasada assisti, pela primeira vez, à abertura da novela “Belíssima”. Normalmente não acompanho novelas: não tenho paciência para acompanhar uma história por 06 meses e, normalmente, falta tempo para adquirir tal paciência. Prefiro seriados, noticiários, documentários ou filmes, em que, no máximo, em 02 tenho o desfecho. Mas já havia visto a paródia do Casseta&Planeta e até uma reportagem especial com a modelo da cena. Admito que tinha a curiosidade e até já achava que era algo muito, muito bom, pela repercussão. Contudo somente na semana retrasada é que realmente vi a abertura.

 

Posso dizer que sentimentos de perplexidade, raiva ou revolta foram o mínimo que tive enquanto me sujeitava àquela visão. Fiquei tão traumatizada que passei a semana passada fazendo questão de trocar o canal se encontrava uma TV sintonizada na novela e, para completar, tomei um tamanho asco que nem mais quero saber do enredo. Fiz pesquisas mil sobre a novela, só para saber o que pensam dela, revoltando-me ainda mais.

 

Vejamos o raciocínio: a novela se chama “Belíssima”. Sua abertura é um streap-tease. Seria de uma mulher que, na teoria, representaria a própria novela, ou seja, seria belíssima.

 

Mas o que eu vi foi o espetáculo bizarro de um monte de ossos se remexendo, sem sedução nem beleza. Desculpe a miopia, mas vi apenas as costelas da modelo, os horríveis braços de esqueleto, a mão seca e bizarra. O joelho e a coxa, quando ela está sentada, foram o que mais me causaram estranheza.

 

É verdade que a novela trata do mundo da moda e que, nesse ambiente, as mulheres devem ser magérrimas. Sua função é a de ser um cabide ao destaque principal: as roupas. As pessoas, essas, são simples objetos, sem fome, sem desejo e de rostos inexpressivos. São coisas, apenas. Nas novelas, no entanto, ainda que a beleza e a magreza sejam unânimes e a coisificação de todos seja corriqueira, o ideal ainda não é o do mundo da moda.

 

Mesmo assim, de repente, em um programa que dita moda e comportamento, que prende o brasileiro por cerca de 06 meses e que possuiria uma das maiores audiências dos últimos anos, vê-se uma mulher esquálida, anoréxica, com costelas à mostra e ossos de pernas e mãos e braços sem qualquer carne, ao som da música “Você é linda”, de Caetano Veloso, e, ao final, a expressão “Belíssima”.

 

O que se quer dizer com isso?

 

Nem cheguei no ponto de falar da coisificação feminina, da apologia à mulher-objeto. Apesar de estarem presentes, estou mesmo tratando de algo um pouco mais sério (mesmo que diretamente ligado): o apelo à anorexia. E não estou me referindo ao possível debate a ser levado ao ar pela própria novela. Estou falando justamente da hipocrisia dela.

 

Campanhas, documentários e, inclusive, reportagens da própria Rede Globo já falaram da doença. O autor da novela disse que trataria do debate ao incluir uma personagem com anorexia. O objetivo seria chamar atenção aos perigos do mundo da moda. Mas como é que as coisas ficam se logo na abertura há alguém tão magro como uma anoréxica sendo chamada de “linda demais” e belíssima?

 

E o pior: como é que ninguém percebeu isso? Como ninguém viu aqueles joelhos? Aquele braço? Aquelas costelas? Não. Não vi, não ouvi nem soube de qualquer manifestação contra essa abertura. Ao contrário: pesquisei e só encontrei elogios à trama e à abertura, considerada uma obra-prima. Oras, uma obra-prima? De Hanz-Donner? Com uma anoréxica? E eu me pergunto como ainda me surpreendo...

 

Não consigo deixar de imaginar uma criança ou até mesmo uma adolescente assistindo a um streap-tease anoréxico ao som de “você é linda, mais que demais, você é linda, sim” e, ao final, ler “belíssima”. Não consigo deixar de imaginar, nem de me revoltar.

 

É... talvez eu esteja mesmo em uma fase excessivamente ranzinza.



Escrito por Sulamita Saad às 10h55
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, SETOR DE AREAS ISOLADAS, Mulher, Animais, Arte e cultura, Cinema, Vídeo, Livros, Saúde, Moda


Histórico
Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Com o pé na cova
Controversy
Rafael Morena
Agnus Project
República dos Pêssegos
O uso da literatura em língua inglesa para a conquista mundial
7 por 7
Mediações