CODECILO
Antigamente a morte parecia algo bem mais próximo de nós. Quando natural, acontecia ali, naquele quarto, onde o morto permanecera boa de sua vida. O velório era na própria casa, com as pessoas passando a madrugada tomando café, cachaça, conversando e intercalando na oração do terço.
Agora a morte é um tanto séptica. Morre-se no hospital. Vai-se para uma capela branca e longe de casa. O serviço todo dura uma ou duas horas e tudo acaba logo.
Estava pensando nisso. Ontem. Anteontem, antes de ser inundada por sensações de sedução e a vontade de realizar desejos. Poderia ter ficado nesse eterno momento, mas hoje a lembrança voltou. Na realidade, não a lembrança, mas meu questionamento.
Como seria a minha morte? Na realidade, não exatamente a minha morte, mas o que ocorreria logo após dela, nos períodos de preparação e na ação mesmo de livramento do corpo imundo (antes que começasse a feder). Ou seja, imaginava como seria o chamado velório / funeral...
Imaginei listas de visitantes (poderia chamá-los assim?). Quem iria? Quem de minha lista de amigos, conhecidos, parentes, familiares se apresentaria? Olhei na minha lista do orkut, pensei nas cento e tantas pessoas presentes por lá. Vasculhei minhas agendas telefônicas. Observei a lista do MSN. Olhei ao meu redor. Lembrei de rostos, nomes, pessoas que passaram por minha vida, que eventualmente passam. De pessoas a quem eu pouca ou nada representei, nem nunca representarei. A quem fui alguma coisa (se é que posso também utilizar esse termo), ou mesmo para aqueles que me amam e eu amo. Minha grande questão era: como eles saberiam da minha morte?
Pensei muito além disso. Pensei se nem sequer eu tivera existido. Complicado pensar assim. Quando eu era criança, gostava de ficar quieta em um lugar, quase sem respirar, fingindo não prestar atenção às conversas e sempre me questionava: “será que eles são assim quando eu não estou aqui?” ou então “ah, então as coisas seriam assim se eu não existisse”.
Quando eu era criança... Eu também tinha medo da morte. Tinha medo de morrer dormindo e não perceber que havia morrido. Às vezes, tentava ficar no escuro total, sem pensar em nada e sem respirar só para saber como era a morte. É claro que eu nunca consegui saber...
Hoje... Eu simplesmente penso como seria quando as pessoas que eu amo morrerem. Meus pais. Meus irmãos. Eu vou me lamentar por não ter dito “eu te amo” ou não haver demonstrado de verdade que os amo? Vou olhar os armários vazios e me arrepender das palavras amargas que um dia foram ditas? Eu vou ter um ataque histérico e rir feito uma hiena durante dias, anestesiada?
E eu também penso hoje na minha própria morte.
A questão que às vezes me invade é: “se eu morresse hoje, como seria? Quem sentiria minha falta? Quem estaria presente à despedida? Quem se lamentaria? Quem consolaria meus pais? Como as pessoas reagiriam?” e etc. etc. Eu apenas gostaria de saber...
De qualquer forma, quando eu morrer todos os meus órgãos doáveis devem ser retirados de mim e reaproveitados em quem possa continuar a viver (para isso, todas as minhas carteiras possuem o emblema “doador de órgãos”). O resto, apenas uma casca, deve ser cremado. Minhas roupas devem ser doadas a quem necessitar. Meus escritos e restos de papéis podem simplesmente desaparecer (eu preferiria que fossem entregues para a reciclagem, mas acredito que as pessoas que vivem comigo não fariam algo assim, não fazem nem com lixo de verdade... ). Eu não me importo nem um pouco com o que fizerem com as cinzas, mas acharia muito estranho ver um pacotinho ou uma caixa cheia de pó. Se a casa fosse minha, eu jogaria o pó fora. Seria melhor que os nutrientes fossem devidamente úteis a plantas e coisas assim, não é esse o ciclo normal? Não me preocuparia com rituais, mas sei que realizariam uma missa de 7º dia, então, eu gostaria que tocassem algumas músicas, especiais. Eu as colocaria aqui, agora, mas procurei seus nomes por aí e não os encontrei.
É, hoje eu apenas andei pensando. E vendo. E rastreando. Na realidade, talvez eu só quisesse que algumas coisas fossem diferentes. Ou não.
Escrito por Sulamita Saad às 21h45
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