“Senhor condutor, pode parar, que eu quero descer!!!”

A vida poderia, de vez em quando, dar umas pausas, parar de correr, esperar que as pessoas se acostumassem com as situações, e depois seguir, de leve, devagarzinho, bem devagarzinho. Mas ela teima em, de repetentemente, dar uns saltos, sem motivo aparente, sem qualquer explicação.

 

Anteontem, eu estava dando sermões em amigas sobre a bobagem das idéias de “vai demorar um pouco para um cara me fazer perder a virgindade” e ontem eu estava olhando ao redor de uma mesa de amigos tentando fugir de conversas sobre a duração do sono de um bebê, como fazer uma criança dormir e rezando para que ninguém começasse a discorrer sobre a cor do cocô de um bebê assustado.

 

E cada vez que eu tentava pedir socorro, fugir, dar um pulo, correr para um bar e começar a beber como adolescente ou ainda pensar sobre quanto tempo faz que eu não vou dançar em uma boate de playboy ou ainda de GLTBS até quase as 5 da manhã, eu olhava para o lado, via uma linda aliança no meu dedo anular e sorria... Definitivamente, eu perdi alguma coisa, parece que um pedaço bem grande do tempo foi cortado e só restou aqui, ou então entrei numa montanha russa em algum lugar do passado e ainda não sai dela.

 

As coisas começam a ficar um tanto difíceis. Antes, ser estranha e ter idéias esquisitas era mais fácil de suportar... Mas como explicar para mamães com bebês risonhos que não, não acho a maternidade o centro da vida feminina; que acho bebês lindos, mas não tenho nenhuma intenção de, por isso mesmo, ter uma pequena penca deles; e que não acho pecado o fato de querer ir a barzinhos e festinhas sozinha ou apenas com amigas, sem o consorte à tiracolo? Ou que, muito pelo contrário, fazer isso, às vezes me irrita, porque me impede de ter a conversa que eu queria ter?

 

Há 02 semanas sai com uma amiga. Um almoço deliciosamente perdido na qual ouvi a tantas o quanto ela se sentia sozinha e, por isso, encontrava viagens a trabalho para sair da cidade. Perguntei, naturalmente, por que, então, não me chamava para sair ou por que sempre que eu a chamava ela se recusava a ir, dizendo que não estava a fim. A resposta que eu ouvi foi “ah, você tem um namorado, vai querer sair com ele, conversar com ele...” Caramba! Não foi a primeira vez que ouvi isso... Em um outro encontro ouvi uma amiga, recém saída de um relacionamento extra e conjugal, falar que estava saindo, que estava gostando de sair apenas com as amigas, ficando em barzinhos só rindo e conversando, que na semana anterior havia ido a um barzinho de que a gente gostava de ir, antes. Perguntei, então, “ah, que droga! Por que vocês não me chamaram?” ao qual fui respondida: “ah, mas você não pode, você está namorando!”

 

Talvez eu queira negar o tempo passando, como uma outra amiga sugeriu de leve ao me dizer: “mas a vida é assim...  daqui a pouco você vai ter outros interesses e desejos, é bem natural”. Ou então eu seja um eterno complexo de Peter Pan, mas não posso negar minha preocupação com essa “vida adulta” que não me parece uma vida adulta natural, nem mesmo escolhida por mim. Essa “vida” me parece um pouco estranha, porque me diz que eu devo querer me casar, ter filhos, criar de bebês, fazer um concurso público para ter uma vida segura e dar essa segurança aos meus filhos, que eu devo passar uns 25 anos pagando um apartamento “meu”, parar de sair senão com meu marido e conversar com minhas amigas apenas conversas amenas, que possam ser ouvidas pelos rapazes, a menos que eles, deliberadamente, saiam para ter “conversas de homem”  enquanto fazem o pagamento do almoço... E eu me sinto em um turbilhão meio que levada a isso, sem forças para ir contra, mas consciente de que, não, não quero mesmo ir nessa direção.

 

E então eu não me sinto à vontade em nenhum dos nichos. Minhas amigas solteiras me evitam porque teria um compromisso e não conversam “certas coisas” comigo. Eventuais casais conversam apenas sobre o que não me interessa, definitivamente. E eu não sei onde me encaixo, aliás, com nunca soube, numa eterna adolescência.



Escrito por Sulamita Saad às 10h21
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