Lá fora a chuva, chorosa, molhando o vidra da janela. Os carros passavam em sua luz enquanto a respiração embaçava a vista a sua volta. Livros em cima da mesa. A cama desarrumada. O corpo e o resto de solidão.
Alguma coisa para acontecer. Alguma coisa parece sempre acontecer, a todo dia, a toda hora. Não sei, mas aquela sensação de incômodo não pára de dizer que alguma coisa tem de acontecer. E não passa, não passa... Por que não acontece logo? O que há para acontecer? Por que não acontece?! Eu preciso que aconteça...
Sono e sonho são importantes. Eu estou sem dormir. Eu apago, fecho os olhos, sumo, desapareço, deixo de existir, mas não durmo. Onde está meu sono? Será que perdi os sonhos? Bem, eu até sonho, e sonhos bem psicanalíticos, proféticos, mas o que eu preciso é dormir. Eu preciso mesmo é dormir.
Não há idéias. São tantos os pensamentos, mas eles não param, não permitem ser desenvolvidos, voam de um lugar para outro e são tantos... Mas nada dizem, só passam rápido, enfileirados, apenas para que eu lhes veja o rosto na escuridão da mente (e eu não consigo imaginar a mente clara, nem há janelas). E eles não páram. Não me deixam dormir. Não me deixam seguir. Onde está a caixa de pandora para trancafiá-los? Preciso pensar em algo. Mas qual escolher se são tantos os pensamentos?
A pele é o maior órgão do corpo humano. Mesmo assim ela deveria ter um zíper, para a gente abrir, tirar, sair dela e pendurar no cabideiro. Depois era só vestir outra... Ou não... Instituir a estética da gordura e dos músculos... A individualidade visual de cada um permaneceria. É... A minha pele deveria ter um zíper.
Falta alguma coisa. Mas a família está inteira (desde a última morte, ninguém mais morreu ou foi embora). O celular está ali. As chaves estão presentes. Os documentos não foram perdidos e até a gata da família responde na hora da comida. Mas falta alguma coisa. O que, meu deus, se já procurei e nada encontrei?
Festas, bares, luzes, amigos, risos... O tempo passa tão rápido e em câmara lenta. Eu estive lá e foi tão rápido, mas as imagens se repetem numa tediosa baixa rotação, numa visão bêbada, quase sem movimento. Só falta a cor. E o ar.
Acho que preciso sentir dor. Alguma dor fina, atormentante, que me faça gritar e colocar para fora todos esses pensamentos e mais alguns outros que não coloco aqui por receio de mim, que cause algum sofrimento, catarse e termine naquele grande alívio de vazio. Mas não pode ser mais aquela dor da alma, dor do coração. Essa eu não suportaria nem um peteleco mais. Dessa eu já estou satisfeita e também já tenho peso demais para carregar. Eu quero a outra, que doa tanto que me faça esquecer dessa e de todo o resto e depois pareça como se nunca existisse e desapareça.
Desenhos de flores têm me atraído, tanto... E são doces e meigas e simples flores. Bolinha, 05 pétalas e um curvo cabinho. Desenhos de flores têm me atraído a ponto de as desenhar em todo o lugar, mas sinto a meiguice tão longe de mim...
Três flores foram passear.
Mimi, Flora, Fifa
Cada uma com seu tamanco
Correndo a passear
Mimi, Flora, Fifa
“para onde vão tão apressadas?”
Vamos todas passear!
E lá foram três florzinhas
Amigas, passar
Mimi, Flora, Fifa
Não, não tem nenhum sentido. Mas desde quando alguma coisa tem? O que é que faz sentido nessa vida de ninguém? Quem pode dizer que há algum sentido em tanta coisa? Nada realmente faz qualquer sentido em nenhum lugar.
Faltaram apenas o desenhos, à caneta, de Mimi, Flora e Fifa...
Escrito por Sulamita Saad às 21h23
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