UMA TARDE NO MOTEL... A TRABALHO...

Ossos do ofício às vezes nos pregam peças, irônicas ou constrangedoras ou inocentes. Ou não.

 

Meu único trabalho era acompanhar a viagem, até determinado trecho. E depois esperar que retornassem. Ao chegar, almoçamos em um posto de gasolina. Discrição. Muitas pessoas almoçariam, pessoas que vem e vão, ninguém se importaria com 03 forasteiros e muita poeira. Depois, ao fórum. E depois...

 

E depois? O que fazer? Esperar? Esperar...

 

Decidimos ir a um vilarejo próximo, bom em artesanato. Ao chegar, porém, um faroeste caboclo, uma cidade fantasma, uma cenografia. Nada e ninguém. Uma vila abandonada, que só funciona em períodos de feira. Engraçadíssimo: a vila toda pintada, cores bonitas, coloridas, casas antigas, a igreja local e uma praça com um tapete de grama perfeitamente verde, como daquelas cidadezinhas de novela. Greenville? Uma completa decepção.

 

Voltamos à cidade. Ficamos rondando.  Em cidades pequenas, há sempre uma praça, um parque, uma sorveteria. Quem sabe um cinema? Ou talvez algumas lojas para serem visitadas... Região de vendas de móveis rústicos: não custava nada passear...

 

Bem... A praça era uma desolação só. Nem uma única árvore, nem um banco ao sol. Apenas o cimento. E casas. Velhas, para complicar. Nem mesmo havia “centro”. Havia uma lojinha aqui, outra acolá. A sorveteria estava fechada, às 14  horas, um sol de 30º. Ao longe, uma placa: “Hotel Fazenda – 11  km”. Fomos dar uma olhada... Um mato alto, apenas. Um lago aberto. Nem sei se havia peixes. Não tive coragem de entrar.

 

Vimos ao longe uma construção bonita. Poderia ser um bar. Poderíamos tomar uma coca- cola, uma água de coco. “La maison Drinks”. Nunca me esquecerei esse nome. Jamais! Placa com um coqueiro. Paredes de cerâmica preta e cinza. Do carro eu logo avistei: prateleiras e prateleiras de vidro, com copos e conhaques. E cachaça. Estranho... Havia muitos espelhos e fotografias. De mulheres nuas. Não, não eram “folhinhas”, calendários. Eram fotos, quadros. Era um cabaré, um prostíbulo. Fomos ao “Bar da Fátima”: vendia coco. E mulheres. Voltamos ao posto de gasolina. Passado o almoço, só o posto funcionava. O restaurante, a lanchonete, a televisão, tudo era fechado, no cadeado. Definitivamente, eu estava no fim do mundo! Um muquifo! E sem hospitalidade!

 

Vimos uma placa: Pousada das Flores, mas nem sequer aceitaram abrir a porta. A mulher só colocou a cabeça para fora da porta e disse que ali era tudo reservado para uma empresa.  Sem vagas.

 

Hotel Goiás. A recepcionista aceitou fazer metade do preço. Pagamento adiantado. Em dinheiro. Com nota fiscal. Não era pernoite. Era apenas passagem. Algumas horas. Eu apenas queria ir ao banheiro, me refrescar, descansar um pouco, talvez assistir à TV e esperar que ligassem de volta. Quarto 02. Eu simplesmente não via a hora de poder fazer xixi! Finalmente! E então eu abri a porta...  Uma cama de casal... Toalhas de banho vermelhas... Um banheiro sem portas... Uma televisão. E um lencinho, em cima da TV, de cetim, azul, com um coraçãozinho verde bordado!

 

Eu simplesmente estava em um quarto de motel de beira de estrada, de 5ª categoria, sozinha, com um homem que não era meu pai, meu irmão, meu amigo ou meu noivo, morrendo de vontade de fazer xixi... E com um banheiro sem porta!

 

Bem, nessa hora a questão funciona assim: respire fundo, pense “desistir nunca, retroceder jamais”, sorria, ligue a TV, deite na cama e durma. Ou veja Vale a Pena Ver de Novo, Tartarugas Ninja III, a Usurpadora, Márcia Goldsmith e Sem Censura. Depois... Olhe para seu companheiro de cama e diga sorrindo: “pois é, caríssimo, você já pode dizer que dormiu comigo num motel...” e corra para contar a história verdadeira para seu noivo... Porque esse tipo de coisa é assim: se você não contar... ninguém vai acreditar.



Escrito por Sulamita Saad às 09h12
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