UM RETORNO...
Monografia entregue. Faltam nota e o diploma. O artigo foi aprovado e muito bem considerado. E a minha apresentação no Congresso foi legal. Claro, como eu não era mesmo ninguém, me deram o menor tempo e o pior horário. Depois pediram para diminuir ainda mais e tive de cortar muita coisa... Só porque sou boazinha! A sensação com que eu fiquei foi que acharam que me prestavam um “favor”. Acho até que ouvi isso de alguém...
No escritório as coisas estão meio paradas. Coisas que eram para ser, não foram. Minha sócia é uma enrolona e eu uma condescendente: todos os dias me arrependo de alguma coisa. Deveria ser mais forte, deveria brigar mais, deveria tomar conta de tudo sozinha, ser mais empreendedora, não deveria ter feito o que fiz! Estou meio apática por causa disso.
Do casamento, fechados cerimonial, igreja, local da recepção, decoração da igreja e da recepção, convites, buffet, bolos, doces, fotografia, salão de dia da noiva, iluminação e DJ. Faltam: roupas dos noivos, lembranças, filmagem, músicos da cerimônia, carro, manobristas, lua de mel. Do enxoval providenciei toalhas de mesa, jogos americanos, toalhas de banho, colheres de pau, lençóis de cama finos, além de porta-talheres, comprado em Recife e Fortaleza. Faltam os materiais do dia-a-dia, a serem comprados por aqui mesmo ou em São Paulo, além dos meus itens íntimos. O noivo que se vire com os dele...
Mas se antes eu estava chateada com o negócio do buffet, hoje estou chateada com um item que é muito mais essencial: a casa! Não sei mais o que faço!! Já pensei adiar o casamento por um ano, só pra resolver essa questão. Tirando o convite, o resto tudo se resolve...
Bem, sempre pensei que me casaria estando com a vida um tanto resolvida. Ledo engano. Mas só decidi casar porque minha eterna companhia cismou que já tinha uma casa para nós dois morarmos. Se quem casa quer casa, as duas coisas essenciais para um casamento estavam resolvidas: os noivos e a casa! Festa, comemoração, utensílios não são imprescindíveis, pois os primeiros não precisam ser feitos e os utensílios vêm com presentes e com compras, aos poucos...
Então, tínhamos onde morar. Mas.. sempre há um mas: o lugar é longe de onde moro; longe dos parentes, do trabalho, dos amigos. Eu, particularmente, achava que se a casa estava pronta, e era um lindo apartamento de 3 quartos, com suíte, varanda e lavanderia, eu não poderia desejar mais nada. Antes, teria de dar graças a deus! Afinal, não nasci em berço de ouro, não sou filhinha de papai e sempre tive a consciência de que eu teria de construir meu patrimônio com o meu próprio esforço! Então, ter aquele apartamento parecia um sonho! Ainda mais porque era presente!
Tanto pais quanto futuros sogros e amigos foram peremptoriamente contra. Deveríamos encontrar um lugar mais perto, que não pegasse tanto transito! Poderíamos aproveitar a valorização do imóvel e comprar um no plano e, desde que ficamos noivos, estamos procurando! Então, deixamos de ter casa... Mas até aí, tudo bem, havia tempo, disposição, muitas opções. Sabíamos que trocaríamos um apartamento de 80 m2 por no máximo 60m2, sem varanda, sem suíte, sem estacionamento fechado, sem elevador, mas com mercado, padaria, drogaria, restaurantes na esquina de casa, com disponibilidade de transporte público e próximo a amigos e parentes, além de ter o charme de morar no plano piloto, dentro de uma cidade-parque.
Mas não seriamos nós a comprar o imóvel. Os pais do meu digníssimo é que o comprariam (foram eles que compraram o outro apartamento para o noivo, claro). Começamos nós mesmos a escolher e em algum momento foi decidido que eles é que se responsabilizariam por isso e, desde então, não sei mais o que faço! Se antes nós possuíamos um lugar para morar, hoje cada vez menos eu sinto ter isso. Já vimos trucentos apartamentos, já escolhemos diversos, que poderiam ser bons, que poderiam ser adequar às nossas necessidades, que estariam dentro de um orçamento possível. Sempre há alguma coisa. Eles não gostam (eles não gostam?! São eles que vão morar???), eles gostam de um que está fora de cogitação (não consideram valor de condomínio, é longe de supermercado e padaria), de um que exige que seja completamente refeito (putz, estou há 4 meses de me casar!!), gostam e deixam o corretor esperando (para fazer doce... uma besteira!) e ele vende para outro (claaaaaarrro!!! Se o apartamento está para vender, é para VENDER!!!). Gostam, mostram aos noivos, o lugar é aprovado e... aparecem outros compromissos que impedem a comprar
E nisso, estou cansada, com raiva, humilhada e de mãos atadas. Não é presente?? À cavalo dado não se olha os dentes! Eu não me vejo no direito de exigir alguma coisa. Eu poderia exigir se eu tivesse condições de fazer algo. Mas, mais uma vez, eu não posso. Eu apenas vejo os dias se passarem, as incertezas aumentarem e a minha vontade de não me casar, de não me sujeitar a voltar de uma lua de mel para a casa da minha mãe porque o apartamento não ficou pronto. Parece que para eles isso é normal. Já acontecera antes... Mas para mim... Isso é humilhante! Isso é revoltante! Isso é passar atestado de incompetência! Se eu não tinha condições de casar, que não casasse!! E eu me sinto humilhada, sim, me sinto humilhada por depender dos outros, de precisar tanto da ajuda de quem nem ao menos é meu parente (não, ainda não são, e depois serão apenas por afinidade), de não ter condições de simplesmente dizer: olha, deixa isso para lá, ok? Deixa que a gente vai resolver isso sozinho. E sair e dar entrada num financiamento... Mas eu só fico aqui, desanimada com tudo. Não tenho nem vontade de marcar para escolher o vestido, para concluir o enxoval. Para que? Isso não é importante para mim... Mas o que é..
Escrito por Sulamita Saad às 12h52
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