...Coletânea...


16/11/2008


MACHISMO CAMUFLADO, DELICADEZA ÀS AVESSAS

Homens e mulheres possuem particularidades, formas de conversas, de falas, diferentes entre si, entre pessoas do sexo oposto e entre grupos mistos. Mulheres juntas têm o hábito de falar alto, rir alto, falar fino, coisas assim. Parecem quase um bando de crianças correndo e gritando e chega a dar dor de cabeça. Homens em grupos de homens tendem a falar mais palavrão, a usar palavras mais pejorativas e coisas assim. Parecem o estereótipo do caminhoneiro chucro e sem educação, de camisetas, suado, gordo, bebendo cerveja, com uma grande costela de porco do lado e cuspindo no chão, que vemos em filmes. Em grupos hetererogêneos cada um assume outras características que variam de acordo com o interesse sexual em voga, o grau de parentesco e afinidade e, claro, a educação e a cultura. Faz parte do que a sociedade tradicionalmente estabelece como parâmetros de feminino e masculino.

Apesar disso, uma coisa que me deixa extremamente irritada é justamente estar numa roda de amigos, juntamente ao sexo masculino, e perceber que claramente eles procuram evitar assuntos, temas, modos e formas de falar porque eu estou por perto. Poucas são as coisas que mais me tiram do sério do que ouvir trechos como: “que é isso, vamos respeitar a presença da moça” ou “não vamos desse assunto em honra à nossa querida amiga” ou ainda perceber trocas de vocábulo, do tipo: “você transou/fudeu/fez sexo com ela?” para “você fez amor/amorzinho com ela?”. Pior ainda é ouvir uma mulher dizendo: “acho que vocês se esqueceram que estão na minha presença”. Mais doloroso é ouvir tais comentários em meio a risinhos disfarçados...

Não, isso não é legal. Isso não é educado. Isso não é nem mesmo delicadeza, gentileza ou respeito pela presença do outro. Isso é machismo e absoluta falta de respeito. Isso é a clara declaração que os mundos são separados e que não há formas, meio, tentativas frutíferas de que haja o mínimo de intersecção entre os dois mundos, de que “você não faz parte do meu mundo”, você é o diferente aqui, deslocado. É também o paternalismo negativo, que infantiliza, que diz que não sou capaz de me defender, de selecionar, de saber o que é o mundo e que, por isso, preciso de proteção, de alguém que diga o que posso ou não suportar, eu, o sexo frágil, a mocinha. Isso é quase como ouvir a declaração de que eu seria uma “moça para casar” e, que, portanto, o prazer, o sexo, a bebida, me são proibidos, ficando a mim apenas o fardo de uma vida “honesta”, regrada, respeitosa e contida, enquanto à outra, coitada, sobram as humilhações, a sujeira, a inferioridade de ser menos. Porque aquela que não é para casar não é também àquela que “aproveita” a vida. Ambas são usadas, separadas, cortadas, negadas em sua integralidade de ser humano complexo e completo que possui todos os desejos e ambigüidades do sim e do não.

Estou falando assim quase que contendo a raiva, a vontade de declarar profundamente meu desgosto e decepção, de fazer um discurso inflamado e irritado... Não posso negar a dor... E ela me faz conter a raiva. E me faz também ter mais consciência de mim mesma... Porque nada mais estou fazendo do que sorrir diante da humilhação que senti, assim como meu sexo foi ensinado e doutrinado durante tanto tempo. Estou justamente escondendo aos outros minha revolta em nome da paz, do “deixa para lá”, exatamente como tantas vezes alguma mulher fez diante da presença desse nome tão sujo: machismo.

E então vejo que a minha raiva do outro, que não pode ser magnânimo, que é apenas mais uma vítima de uma sociedade como a nossa, que não me conhece, que não sabe o que eu respeito e como posso ser respeitada, torna-se raiva de mim mesma. Porque também sou parte disso tudo... E se o outro, talvez sem saber, tem camuflado o seu machismo em palavras que poderiam sugerir respeito à minha presença, eu inverto a idéia de delicadeza e sorrio enquanto quero matar. O problema é que eu sei disso. Eu sei quem eu sou. O que eu sinto. O que eu quero. O que eu penso. O que o outro quer dizer. O que o outro é, mesmo que não queira saber ou nem saiba. E isso me torna, então, pior do que o outro...

Sabe o que eu, então, vou fazer em relação a isso?

Não posso mudar o mundo nem o outro. Posso mudar a mim mesma, apenas. Ou pelo menos ser o que eu sou ou o que quero ser. Consciência... E esquecer essa idéia de paz e “deixa disso” quando não é para ser. Talvez nisso eu possa crescer. E talvez perdoar. Ou inflamar a guerra.

Neste exato momento, é isso mesmo o que eu quero. E agora eu vou falar!

Escrito por Sulamita Saad às 21h21
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