Dia desses estávamos numa reunião de colegas, mesa de bar, restaurante, essas coisas. Texas alguma coisa. Serviço ruim. Comida Boa. Perto de Casa. Mas não vim falar disso, não.
É que tantas horas da noite, a mocinha quase a minha frente conta, frenética, uma experiência libertadora: havia acabado de começar a morar só. Até então, morava apenas com o pai. E fora o primeiro banho na casa sua, só sua, e sem a presença de ninguém. O banho foi normal. Sua libertação veio mais tarde. Ao final, enrolara-se na toalha e ia saindo do banheiro quando pensou: "peraí, estou sozinha em casa, na minha casa! Por que estou usando toalha?" Então, ela, no gesto libertador de seu ser, tirou a toalha, balançou-a em frente ao espelho, braços para cima e com a boca escancarada gritou: "nunca mais!" e saiu livre, leve e solta, sem lenço e sem documento até o seu quarto onde se trocou.
As pessoas então começaram a perguntar:
_ Mas e antes?
_ Ah, antes eu morava com o meu pai, sempre havia alguém em casa e eu tinha de sair de roupa ou enrolada na toalha.
_ Mas e as janelas?
_ Ah, dane-se. Estou na MINHA casa!
E essa história foi-nos contada, em toda a empolgação, ainda umas três vezes. Sempre que mais alguém voltava-se para ela, aproximava-se da mesa ou apenas falava "hein?". E a cada vez, o gesto de balançar os braços, segurando a toalha, escancarando a boca e frisando os olhos era reforçado, numa graça de quem realmente estava muito feliz com tudo isso.
Eu tive dois bons motivos para ficar alegre nessa história. Primeiro, a moça estava na fase de ganhar independência. Quase trinta anos. Vivendo sozinha pela primeira vez. É bom ver as pessoas "se dando bem". E, além disso, porque foi uma coisa meio libertadora, mesmo, tão entusiasta estava a moça.
Mas desde então, desde que ouvi a história da boca da própria contante, fiquei muito intrigada com algumas coisas e até achando graça. São aquelas idiossincrasias da nossa vida, da nossa sociedade... Resumindo, na cabeça da moça (e sei lá mais de quem), a nudez deve ser preservada dos mais próximos, mas pouco importa o que os demais, desconhecidos, possam fazer com ela, desde que seja apresentada dentro do nosso território. Onde, claro, de novo, ela não será apresentada quando houver o mais próximo, o familiar...
Confuso?
Eu explico: eu achei engraçado que ela se protegesse, protegesse a nudez dela, de mulher de trinta anos, do pai, por exemplo, com quem morava e morou por tantos anos, que foi quem cuidou dela quando criança, e que já deve tê-la visto nua diversas vezes, mas pouco se preocupasse com estranhos, com seus vizinhos e etc e tal, que poderiam vê-la estando as janelas ainda sem cortinas ou abertas e que poderiam saber que mora sozinha... E também achei engraçado lembrar que uma das idéias de liberdade era justamente o poder de andar pela casa, pelo seu território, nu ou evacuar, urinar, fazer cocô ou xixi de portas abertas. E achei engraçado que o argumento de tudo isso era simplesmente: estava na minha casa!
Acho que, sob esses argumentos, não sou nem um pouco livre... hehehehe... Mas então, quando é que eu posso ser?
ATUALIZAÇÃO DE LEITURA
Mês que passou foi bem frutífero em leituras. Li, ao longo do tempo:
Além do Princípio do Prazer - Freud;
Como preparar coquetéis - sei lá;
O Casamento - Nelson Rodrigues;
Grandes Clássicos DC 09 - Allan Moore;
Lost Girls - vol. III - Allan Moore (a merecer um post especial);
O Recurso - Grisham (ainda não concluído).

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