...Coletânea...


17/12/2008


A NUDEZ NÃO MAIS CASTIGADA

Dia desses estávamos numa reunião de colegas, mesa de bar, restaurante, essas coisas. Texas alguma coisa. Serviço ruim. Comida Boa. Perto de Casa. Mas não vim falar disso, não.

É que tantas horas da noite, a mocinha quase a minha frente conta, frenética, uma experiência libertadora: havia acabado de começar a morar só. Até então, morava apenas com o pai. E fora o primeiro banho na casa sua, só sua, e sem a presença de ninguém. O banho foi normal. Sua libertação veio mais tarde. Ao final, enrolara-se na toalha e ia saindo do banheiro quando pensou: "peraí, estou sozinha em casa, na minha casa! Por que estou usando toalha?" Então, ela, no gesto libertador de seu ser, tirou a toalha, balançou-a em frente ao espelho, braços para cima e com a boca escancarada gritou: "nunca mais!" e saiu livre, leve e solta, sem lenço e sem documento até o seu quarto onde se trocou.

As pessoas então começaram a perguntar:
_ Mas e antes?
_ Ah, antes eu morava com o meu pai, sempre havia alguém em casa e eu tinha de sair de roupa ou enrolada na toalha.
_ Mas e as janelas?
_ Ah, dane-se. Estou na MINHA casa!

E essa história foi-nos contada, em toda a empolgação, ainda umas três vezes. Sempre que mais alguém voltava-se para ela, aproximava-se da mesa ou apenas falava "hein?". E a cada vez, o gesto de balançar os braços, segurando a toalha, escancarando a boca e frisando os olhos era reforçado, numa graça de quem realmente estava muito feliz com tudo isso.

Eu tive dois bons motivos para ficar alegre nessa história. Primeiro, a moça estava na fase de ganhar independência. Quase trinta anos. Vivendo sozinha pela primeira vez. É bom ver as pessoas "se dando bem". E, além disso, porque foi uma coisa meio libertadora, mesmo, tão entusiasta estava a moça.

Mas desde então, desde que ouvi a história da boca da própria contante, fiquei muito intrigada com algumas coisas e até achando graça. São aquelas idiossincrasias da nossa vida, da nossa sociedade... Resumindo, na cabeça da moça (e sei lá mais de quem), a nudez deve ser preservada dos mais próximos, mas pouco importa o que os demais, desconhecidos, possam fazer com ela, desde que seja apresentada dentro do nosso território. Onde, claro, de novo, ela não será apresentada quando houver o mais próximo, o familiar...

Confuso?

Eu explico: eu achei engraçado que ela se protegesse, protegesse a nudez dela, de mulher de trinta anos, do pai, por exemplo, com quem morava e morou por tantos anos, que foi quem cuidou dela quando criança, e que já deve tê-la visto nua diversas vezes, mas pouco se preocupasse com estranhos, com seus vizinhos e etc e tal, que poderiam vê-la estando as janelas ainda sem cortinas ou abertas e que poderiam saber que mora sozinha... E também achei engraçado lembrar que uma das idéias de liberdade era justamente o poder de andar pela casa, pelo seu território, nu ou evacuar, urinar, fazer cocô ou xixi de portas abertas. E achei engraçado que o argumento de tudo isso era simplesmente: estava na minha casa!

Acho que, sob esses argumentos, não sou nem um pouco livre... hehehehe... Mas então, quando é que eu posso ser?

ATUALIZAÇÃO DE LEITURA
Mês que passou foi bem frutífero em leituras. Li, ao longo do tempo:
Além do Princípio do Prazer - Freud;
Como preparar coquetéis - sei lá;
O Casamento - Nelson Rodrigues;
Grandes Clássicos DC 09 - Allan Moore;
Lost Girls - vol. III - Allan Moore (a merecer um post especial);
O Recurso - Grisham (ainda não concluído).

 

Escrito por Sulamita Saad às 15h22
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15/12/2008


RECEITA (INFALÍVEL!) PARA SE MANTER UM RELACIONAMENTO

As pessoas podem muito dizer: meia dose de carinho, uma pitada de respeito e muita, muita paciência, mas eu vou dizer uma coisa, com base nos últimos 4 relacionamentos desfeitos, para minha surpresa e descontentamento, a receita é a seguinte:

1. a mulher tem de ser bem sucedida financeiramente: nada de viver às custas do marido, nada de abandonar vida por causa do marido. O negócio é se dar bem, depois o marido vem...
2. a mulher tem de acompanhar o marido: amigos chatos, fumaça de cigarro, alcoolismo, balas, ácido, cocaína, maconha, desejo de viver uma vida calma... só se o digníssimo quiser! A mulher, mesmo, tem de acompanhar o marido por onde ele for, a menos que seja uma reuniãozinha de homens para demonstrar sua virilidade, masculinidade, tipo reunião para ver jogo de futebol, jogar videogame, rpg, pôquer ou o que for.
3. a mulher tem de ter vida própria: amizades próprias, dinheiro próprio, salário próprio, repertório próprio. Permissão para reunião das luluzinhas quando houver reunião do clube do bolinha. Como equilibrar vida própria e independente com a necessidade de ter de acompanhar o marido para onde ele for, é problema da mulher, afinal, ela já é especialista em ter de multiplicar tempo e lidar com várias tarefas, inclusive ao mesmo tempo.
4. a mulher tem de ser amiga dos amigos do marido, mesmo sabendo que eles não se consideram seus amigos, e amiga das namoradas dos amigos do marido, sabendo manter a distância exata quando os relacionamentos acabarem. É isso aí. Os amigos do marido serão sempre isso: amigos do marido, nada mais. Mesmo que a mulher deseje uma leal e legítima amizade, deles não receberá nada.
5. os dois tem de morar na mesma circunscrição judiciária: distâncias acima de 60 km são impensáveis, a menos que haja metrô na cidade ou ambos tenham carro.
6. sexo, claro. Livre, libertador, de todas as formas, sem muita frescura.

Ah, sim... O homem?

Bem...

O homem pode permanecer o adolescente que quiser. A responsabilidade pelo final do relacionamento provavelmente não será dele: ou a mulher não vai ter vida própria, ou não vai saber acompanhá-lo direito ou, ainda, o contrário, não saberá sair do pé dele. Ou terá um gênio muito difícil... Ou é travada... Ou vive muito longe... Ou...

Sei lá... Qualquer outra coisa, que eu acrescentaria aqui com todo o prazer para manter os relacionamentos felizes, satisfeitos...

Mas, se for da parte do homem, provavelmente ele não dará atenção suficiente à mulher, não saberá compreendê-la, ou se recusará a crescer, querendo viver uma vida de adolescente (urrú, sexo, drogas e rock´n roll!).

Na vida atual, em que podemos livremente nos desfazer de relacionamentos (nada contra, isso... que, ao contrário, representou a libertação da própria mulher), compreender os períodos de crise, normal em qualquer fase da vida, também é desnecessário. Se há crise, é hora de terminar. Nada de compreender que já se está terceiro, quinto, sétimo, décimo, décimo quinto, vigésimo ano de vida em comum! E que esses são períodos que marcam passagem de vida. Isso, na realidade, é crendice do povo e não existe.

Por fim, se o relacionamento acabou por questões da mulher, é porque alguma das questões acima não foi seguida corretamente. Se terminou por causa do homem é porque os dois estavam insatisfeitos no relacionamento e foi melhor assim...

Malvada, eu?

Uma pessoa que no lugar do coração possui uma pedra de carvão no lado esquerdo do peito?

Se for para ser um diamante... Por que não?

 

Escrito por Sulamita Saad às 09h49
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