Ontem fui a uma reunião na ordem dos advogados. Nunca havia ido. Há alguns anos, eu havia insistido no escritório de que deveríamos participar da comissão, ter um membro presente. Insisti tanto que minha sócia decidiu fazer parte e se aliar ao grupo da situação. Detalhe: depois que tivemos uma briga homérica, de lavadeiras, mesmo, com direito a grito e tudo o mais e que 50% da equipe achou que ela era louca, insana e com sérios problemas psicológicos... Os outros 50% decidiram que ela era uma injustiçada. Resultado: óbvia divisão do escritório. Duas de cada lado. Pouco tempo depois, a outra a ficar com ela também desapareceu. Para mim, um indício de que ela era mesmo louca e insana. Provavelmente, eu estou destilando veneno, e só isso.
Pouco depois, o projeto OAB foi abandonado. Mas há algumas semanas, decidi retomá-lo por outras questões. Eu já sabia que ela fazia parte da comissão. Decidi ir porque um de meus projetos prevê a união de diversas instituições em prol da mediação e arbitragem. Um sonho insano meu. Sei lá porque fiz isso. Apresentei o projeto... Solicitei a parceria. Expliquei do que se tratava.
Ontem foi a reunião para a apresentação desse projeto. Ela apresentaria. Eu não iria, mas fui. Afinal, vindo dela, achei que poderia esperar qualquer coisa. Dito e feito... Ela apresentou o projeto. Como se fosse dela... Como se fosse dela... Como se fosse dela... Como se fosse dela... Falei e disse, tomei a palavra e expliquei: o projeto é meu e será uma honra continuar... E por aí vai.
Mas estou falando, falando, falando, falando, apenas para tirar essa mulher de mim, porque sinto que ela ainda está aqui. E ela pesa muito no meu peito. Eu a odeio. Como odeio poucas pessoas na minha vida. Para ser sincera, além dela odeio apenas mais umas duas outras pessoas, todas conhecidas há tanto tempo que já se perderam no tempo. Mas ela... Eu apenas odeio. E agora terei de trabalhar com ela... Sei lá porque... De qualquer forma, só quero que ela suma da minha vista, do meu esquecimento e desapareça...
Para ajudar nisso, ontem, peguei o carro, coloquei a música no mais alto volume e gritei, gritei e gritei enquanto caminhava. Estou gritando até agora. Gritei mais uma vez. Poucas são as vezes que eu desejei isso para alguém, mas sinto realmente, aqui e agora, que quero que ela morra. Sentimento ruim? Muito, muito mal... Deveria agora fazer uso de todos os anos de ioga, de meditação, de tentativa de desapegos. Mas estou mal... Desejando que ela morra, morra, morra e saia da minha vida, do meu mundo, do planeta em que habito. Não, uma cidade não parece suficiente para nós duas...
Estou com isso travado na minha garganta. Eu grito e não sai... É estranho. O que eu posso fazer para evitar? Fui para a ioga. Durante o período de permanência, esqueci de tudo, entre uma respiração e outra, nada mais existe. Mas voltei e ela voltou comigo. Me dediquei ao trabalho, mergulhei a cabeça em prazos, idéias e em todos os problemas que vêm me angustiando. Ela sumiu, mas permaneceu, porque esse aperto no peito continuou. Fui para a ginástica. O objetivo era ficar com 70% da minha capacidade cardiorrespiratória. Eu consegui... Mas no caminho de volta, caminhando as quadras entre a academia e minha casa, ela ocupou 100% da minha mente. Cheguei em casa e, ao deitar, fiquei imaginando uma historinha. Quando tenho insônia, imagino histórias. Conto histórias. Vejo as histórias como séries ou novelas ou filmes. Algumas nunca têm fim e eu apenas vou para outra história. Ontem, minha história, sobre o misterioso assassinato brutal de um homem no apartamento da ex-mulher enquanto ela dormia na banheira, após ela retornar de uma viagem ao Japão, chegou à conclusão que as culpadas eram a ex-mulher e sua melhora amiga, ex-namorada do defunto. Para disfarçar, a amiga injetou uma droga na outra, para que ela dormisse e desse a impressão que, na verdade, seria uma vítima do assassino misterioso que teria também pensado matá-la por envenamento... A história já tinha umas duas semanas e eu não queria que ficasse como a outra, a anterior, indefinidamente sem fim. Bem, vez por outra, a voz dela aparecia para mim...
A outra história? Duas princesas lutavam pelo trono de seu país, enquanto o mundo tentava sobreviver a uma guerra. As duas possuíam poderes sobrenaturais, o que as capacitava a ser rainhas, mas o poder da princesa boa era tamanho e tão grande que foi percebido pela liga dos protetores universais, um grupo de superheróis que protege a galáxia, o universo e todo o restante de todo o tipo de coisas. Então, essa princesa teve de escolher entre ser uma supereroina, abandonando o seu povo para a meia-irmã ou permanecer, lutar e correr o risco de perder tudo. História sem final, porque cansei dessas moças chatas, hehehe.
E agora... até pedi para trazerem um filme para eu assistir antes de dormir. Hora e a vez de “Onde os fracos não têm vez”, dos irmãos COHEN. Vamos ver se as cenas de tirar o fôlego têm capacidade de tirá-la de mim. Vou preparar a pipoca.

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