...Coletânea...


14/03/2009


DAQUELAS DORES DE QUE NÃO SE SABEM DE ONDE SÃO

Hoje foi mais um daqueles dias estranhos... Eu estou com aquela coisa dentro do peito, aquela vontade de chorar, de gritar, de sair numa briga de mulher, com direito a cara arranhada e cabelo puxado. Na realidade, o dia de hoje está mais ou menos sendo a continuação do dia de ontem, parece que não terminou, que não houve pausa. Acho que preciso hoje de um colo, de uma almofada para deitar a cabeça. Preciso urgentemente de um final de semana e ainda é terça-feira! Meu deus, eu já trabalhei com tortura policial, com questões de sigilo máximo, já vi tentativas de suicídio na minha frente (sim, tentativas, no plural), já enfrentei sala com quarenta alunos, quarenta mundos, quarenta pessoas desafiando, já lidei com Burdelines e, acho, nunca me senti como tenho me sentido ultimamente... Será que isso não é trabalho para mim? Mas se não é, o que seria então?

Hoje estou naquele dia com saudade do que poderia ter sido... Eu poderia ter sido apenas uma anfitriã, eu poderia ter sido apenas uma funcionária pública, poderia simplesmente ter um trabalho que me pagasse bem e que eu não precisasse passar pelo que estou sentindo agora. Mas será que isso é realidade? Existe isso mesmo?

Bem, eu mesma hoje desisti de jantar, até agora, minha última refeição foi meio-dia e olha que eu só comi metade do que eu costumo comer. Já estava sem fome, me sentindo cheia. Passei a tarde a água e café e nem senti sem fome e agora a noite só comi pedaços de grãos de granola... Passei parte desta noite assistindo à série de comédias, à esquadrão da moda. Li o jornal de hoje, assisti ao telejornal da noite e agora estou aqui. Mas nada me aliviou a sensação. Nem a vontade de trocar de roupa, de tomar banho... Parece que se eu fizer isso, a mente não vai aliviar... Mas se eu não fizer, por acaso vai?

Da outra vez que senti algo assim, ioga e ginástica foram um bom remédio. Não solucionaram a questão, mas me aliviaram, ajudaram. Só o tempo passa as coisas, ou não... Fica aquela cicatriz... Pode ficar, pelo menos. Agora, perdi ontem a ginástica; perdi hoje a ioga e me sobraram a TV, os jornais, os livros, e aqui, agora... Estranho...

O que aconteceu? Nem eu ainda sei direito... Só sei que estou mal. Como começou, não faço a menor idéia e me questiono se gostaria de saber.

Bem, vamos lá: ontem, pela tarde, recebi um e-mail com a organização de um evento que estou desenvolvendo em parceria com outra instituição. Fiz o projeto inicial, tratei de objetivos, metodologia, tema etc. Ofereci uma parceria a essa instituição, sabendo que teria de conversar e dialogar, para ajustarmos os termos. Beleza. Ontem recebi o projeto de divulgação. De parceiro, passamos a simples apoiador. A data foi alterada sem qualquer consulta, assim como os palestrantes, sendo que alguns foram inclusive retirados. Imediatamente entrei em contato com o responsável. Até que conseguimos contornar a questão. Argumentaram que fora um erro, um pequeno equívoco, que tudo era ainda uma construção... Fiquei com aquela sensação: ou estou sendo passada para trás, estão puxando o meu tapete, ou não entendo de nada e sou mesmo estúpida e burra... Nenhuma dessas opções é boa e o meu sentimento é péssimo.

Acabei a noite cansada, como se não tivesse dormido. Para piorar, acabei aceitando, com esse povo, a ir a um programa de TV. Apareci na TV num programa ao vivo. Poderia ter achado ótimo, estando muito feliz com uma possível boa divulgação, mas... A todo instante me aparecia a mensagem “que diabos estou fazendo aqui?” Para piorar, essa minha natural inapetência social ficou muito evidenciada. Eu não conhecia as pessoas. E nem tinha desejo de conhecer. E estava sozinha com elas. Estava sem carro, dependendo da carona delas. E me sentindo que ou era traída ou eu era estúpida e que estaria ali por uma espécie de concessão, benevolência, como se estivessem meio que “passando a mão na minha cabeça” e dizendo: “ah, vamos oferecer isso a ela, tadinha... tão tolinha...” Dormia, sonhava (coisa boas, é verdade) e acordava com essa coisa na minha cabeça...

Resultado: acordei cansada... Mas o pior viria hoje. Até porque eu achava que havia meio que exorcizado o dia de ontem e pensei que hoje seria um novo dia e prometeria coisas boas. De fato, pela parte da manhã foram momentos agradáveis com a minha sócia. Fomos resolver uma pendência do escritório. Para se ver como anda a minha vida: momento agradável é passar a manhã em cartório e junto a fornecedores, negociando preços de material de divulgação de nosso trabalho (pastas, cartões, envelopes)... Então, veio o pior...

Eu havia marcado hora para uma reunião às 14:30. Sabia que essa seria uma reunião delicada, de um processo de arbitragem. Mas... Em mais de cinco anos estudando e trabalhando sobre o tema, inclusive lidando com questões delicadas, que exigiram proteção policial e que envolveram emoções de família, e em mais de seis meses acompanhando direta e pessoalmente os casos, nunca havia passado por algo assim. Eu fui humilhada, pisada e sei que, no futuro, o procedimento será questionado judicialmente, inclusive com questionamento sobre minha conduta e atuação. O que eu posso fazer?

Eu sinto que tenho pautado a minha conduta da melhor forma possível. Mas... Ser questionada tão claramente foi horrível...

Hehehehe... Acho que, se fosse minha psicanalista, falaria agora: “por que essa necessidade constante de ser confirmada? De ser aceita? De ser elogiada, como um cachorrinho que faz a coisa certa?” Hehehe... Lendo agora e refletindo meio que parece isso, não é mesmo? Será que meu pai não me elogiou o suficiente quando criança? Por que esse perfeccionismo e necessidade de agradar a todos? Ninguém vai agradar a todos... Nunca... E na área que eu trabalho. Quanto melhor estiver desenvolvendo meu trabalho, provavelmente mais haverá questionamentos.

Mas eu não sou psicanalista. E provavelmente um profissional falaria coisa bem diferente disso. Só que o que eu quero disso é tirar essa sensação ruim! É não ser realmente questionada, principalmente quando eu procuro fazer um bom trabalho. Eu queria uma vida simples. Mas isso existe? Eu posso ter isso? E ainda me satisfazer e ser feliz? E eu vou sempre ter de passar por essas coisas, por essas questões e ter esse sentimento constante que hoje está por aqui? Essa sensação de insegurança? Droga... se a resposta for sim, estou assim e não tenho opção. Se a resposta for não... O que diabos estou fazendo comigo e como saiu disso?

Bem, agora a fome meio que apareceu de novo. A Viviane Araújo fala de sua história na RedeTV. A vida dela, agora, parece bem mais tranqüila do que a minha... Mas eu acho que é só porque ela tem glamour, em algum momento... Deve ser muito mais complicada que a minha, com chances mais reais de briga de mulher, heheheh... E como eu já estou meio sem sentido, é hora de parar. Será que o resto vai parar também?

Escrito por Sulamita Saad às 19h09
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10/03/2009


MAIS UM ANO NOVO...

 

E há dois posts eu falava exatamente desses rituais da vida contemporânea e não é que mais um apareceu? Afinal, o que é o carnaval senão mais um ritual de passagem? No Brasil, a passagem do período de festas, vivas e aleluias para a vida cotidiana, a vida de todo dia, para o verdadeiro ano novo. Não é isso que falamos? Que no Brasil o ano novo só começa mesmo depois do carnaval?

E essa questão é tão forte socialmente que, lembro, carnaval nem é feriado! Nem começa na sexta-feira, nem no sábado. E a segunda-feira nem é carnaval, também. Carnaval, mesmo, só na terça-feira e a quarta, apesar das cinzas, não é nada mais do que o início da Quaresma... Então, não é uma grande seqüência ritualística que nos diz que somos brasileiros ao termos carnaval a tal ponto oficial que nem comércio, nem governos, funcionam? E até o meio dia da quarta-feira de cinzas, que nós ainda queremos emendar até o final da outra semana?

Mas o melhor é que o ritual do carnaval nem significa samba. Ou alguém acha que nas “europa”, onde tudo começou, há algum traço do gingado nacional? Carnaval é exatamente isso o que o nome sugere: festa da carne! Nasceu porque na quarta-feira inicia-se o período de quarenta dias antes da Páscoa, período esse em que os cristãos deveriam jejuar ou, pelo menos, abster-se de carne. Assim, o povo da Idade Média, no dia antes de começar o jejum, fazia aquela festa, com toda a carne e vinho disponível. E, claro, aproveitavam a sua experiência anterior nos bacanais e nas festas orgiásticas pagãs (todas as religiões sempre têm uma festa assim...) para alegrar mais essa nova festa que surgia e que nos deixaria hoje tão brasileiros.

Assim, se carnaval não é samba, mas festa da diversão, liberados estão aqueles que curtem rock, hip hop, cavalgadas, passeios de jangada e uma boa fritada e passam longe dos blocos e dos desfiles das escolas para curtirem e fazerem os seus rituais. Eu sou super a favor! Tanto que passei o carnaval fora, num hotel fazenda. Perto de casa, é verdade. Mas passeando para ver cachoeira, fazendo arvorismo, descendo de tirolesa, esperando o povo andar a cavalo e comendo muito, muito mesmo.

Por isso sou bem contra esses grupos religiosos que pregam o “carnaval santo”. Nada contra a religião. Mas contra desfazer esse ritual tão nosso, que nos deixa tão com cara de gente. Acho mesmo que no carnaval as igrejas deveriam liberar seus fiéis e deixar que, depois, a partir da quarta-feira, eles possam pagar suas penitências em dia.

Agora, o problema é que a vida contemporânea aceitou apenas uma parte do ritual. A parte da diversão, lógico. A outra parte, que, aliás, justificava a primeira, todo mundo abandonou. A vida é assim mesmo: cada um tentando se dar melhor e desejando para si o melhor dos mundos. O que eu quero dizer é que na hora do oba-oba, legal, todo mundo quer carnaval. Mas essa história de depois fazer algum tipo de abstinência, de tentar se regenerar, ninguém quer.

O resultado é que, bem... Carnaval virou todo dia mesmo. Não é assim com os carnavais fora de época? E o problema do que vira cotidiano, rotina, é que deixa de ser valorizado, deixa de ter aquele gosto gostoso de período especial. Afinal, se eu posso isso todos os dias, para que vou continuar esse ritual em um dia específico?

Daí que eu também sou a favor dessa história de quaresma! Ora, os mulçumanos não têm o mês do perdão e do jejum, o ramadã? Os judeus têm também o período deles, antes da Páscoa, lembrando o período de escravidão e os quarenta anos no deserto... Os hindus também possuem fases assim... Então, que diabos esses cristãos inventam de não seguir algo do tipo? E por que desdenhar dessa história de seguir as tradições porque se busca algum tipo de abstinência nesse período? E olha que dentro das religiões cristãs ainda há muita liberalidade: não se precisa passar os quarenta dias de jejum, nem ficar sem carne. O jejum pode ser de qualquer coisa: não comer sobremesas, não assistir à televisão, inclusive, não comer carne ou não comer qualquer coisa...

Eu ainda estou pensando no que eu efetivamente vou jejuar. Pensei em chocolates e sobremesas. Mas achei tão pouco... Só que eu já não como carne... Talvez agora fosse a vez de comê-la, pensei... Seria um sacrifício, é verdade. Mas um belo sacrifício, no meu caso. ;)

 

Escrito por Sulamita Saad às 09h23
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